novembro 03, 2009

Jardim de Acasos

Misturava as folhas para construir um jardim de acasos. Coleccionava folhas, cuidava delas como a melhor especiaria, envernizava-as e, depois, com táctil sensibilidade colocava-as numa parede da sala de aula. A paciência era a sua grande qualidade. Os seus alunos viam crescer aquela espécie de "folhário", trepadeira com arte, que se espalha em todas as direcções, em busca de um sentido para o acaso. Às vezes, a desordem confere uma estética inefável que nos envolve nas baínhas e no galope da expansão. Habituados a olhar a natureza com espanto e intimidade, os alunos associaram cada folha a uma palavra que despertasse a angústia de cada um. Ao longo dos dias seguintes, a espiral criativa deu lugar a um texto pós-modermo, cerzido com invisíveis janelas de luz, acessíveis apenas a quem foi capaz de se entregar à cumplicidade das emoções.Frente-a-frente duas paredes: uma de folhas, outra de palavras. Assim nasceu o Jardim de Acasos, onde as folhas e as palavras se enamoram à distância de uma sedução.

Publicado por António Vilhena às 02:44 PM | Comentários (1)

outubro 30, 2009

A crise de horas na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

A redução do horário disponível para os utilizadores da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra tem sofrido alterações bastante gravosas desde há um ano. Dantes a Biblioteca fechava às 23horas, agora fecha às 22horas. Durante o mês de Agosto fechava às 17h30, horário que se prolongou durante o mês de Setembro. Hoje, dia 30 de Outubro de 2009, está um comunicado afixado que diz que a Biblioteca encerra às 17h30 por razões de pessoal. Haja pachorra! Senhor Director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra é preciso fazer alguma coisa para corrigir estes horários minimalistas e castradores. Acredito que será sensível a esta inusitada derrapagem dos tempos modernos em que o cego canta por uma moedinha.

Publicado por António Vilhena às 11:27 AM | Comentários (0)

outubro 29, 2009

Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos.

Acaba de sair mais um livro da colecção “Fluir Perene” da autoria do Doutor José Ribeiro Ferreira. “Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos” é um livro que reúne a seiva da memória de três vultos notáveis que ensinaram na Faculdade de Letras e que, embora jubilados, continuam a exercer grande fascínio no seu discípulo e em muitas gerações de alunos. Estão todos vivos. Em homenagem emocionada Américo da Costa Ramalho, Walter de Sousa Medeiros e Maria Helena da Rocha Pereira expressaram na primeira pessoa a serenidade que o ensino da Cultura Clássica devolveu às suas vidas. Reencontrar a história de que somos feitos é sempre uma janela de liberdade que nos permite afastar algumas sombras que possam dificultar a compreensão do nosso passado. Para o Doutor Ribeiro Ferreira os três Mestres lembrados “apesar de significativas diferenças que os distinguem, têm também a uni-los muitos aspectos comuns: destaco a defesa dos estudos clássicos, a criação da Associação Portuguesa de Estudos Clássicos (APEC), a recepção de culturas e autores greco-latinos e o estudo do Humanismo e do Latim Renascentista”. Estes Mestres que eu não tive a sorte de encontrar continuam a viver na vida de outros discípulos que beberam do cálice da sua sabedoria, que souberam assumir o testemunho como uma linhagem incondicional. A transmissão dos seus conhecimentos resvala para além das obrigações académicas, é um modo de estar na vida, é uma paixão contaminada pela essa matriz greco-latina que nos eleva à dimensão de um humanismo cada vez mais necessário. O Doutor Américo da Costa Ramalho, o “Mestre que se vê no espelho dos outros”, natural de Almeida, doutorou-se em 1952 com a tese “Dipla Onomata no estilo de Aristófanes”. Bastaram poucos anos para em 1954 se tornar Professor Catedrático de Literatura Latina, com apenas trinta e três anos. Depois de uma experiência política menos simpática decide ir ensinar nos Estados Unidos, em New York. Foi Director da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra de 1970 até ao 25 de Abril de 1974, tendo decidido, depois da revolução, leccionar em algumas universidades brasileiras. Jubilou-se em 1991. O Doutor Walter de Sousa Medeiros, o “Mestre da voz e da postura”, nasceu em S.Miguel, nos Açores. Matricula-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1944, e por dificuldades materiais só em 1953 termina a licenciatura na Faculdade de Letras de Lisboa. Brilhante e genial, dotado de uma sensibilidade particular, manifesta a sua cumplicidade com o mundo literário, tendo chegado a vencer os Jogos Florais do Liceu Nacional Antero de Quental, em 1940. Em 1956 regressa a Coimbra como Assistente. Em 1961 defende a tese de Doutoramento sobre a obra de Hipónax: “Hipónax de Éfeso:1. Fragmentos dos Iambos”. Mas o que distingue o Mestre Walter Medeiros é a sua capacidade de comunicar, de encantar, de seduzir com a palavra certa, agarrando as plateias. Foi tocado pelos deuses. A palavra sempre foi a sua pedra de toque, a emoção gotejando em cada sílaba, como uma viagem compulsiva. A Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, o “paradigma que perdura”, nasceu no Porto. Licenciou-se (1947) em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Na sua cidade natal iniciou a sua vida académica (1948) no Centro de Estudos Humanísticos, antes de ir para a Universidade de Oxford investigar para o seu Doutoramento (1956), tendo sido a primeira mulher na história da Universidade de Coimbra. Apresentou provas para Professora Catedrática (1962). Quem conhece ou ouviu falar da Doutora Rocha Pereira sabe que o rigor e a exigência marcaram as suas relações. A eloquência e a segurança com que cativa quem a ouve lembra-me um episódio de Natália Correia, quando no final de uma conferência uma estudante lhe perguntou quanto tempo levou a escrever o texto da intervenção. Natália olhou-a e num ápice respondeu-lhe: “Menina, a vida toda”. Também a Doutora Rocha Pereira levou a vida toda a cultivar a sabedoria e o amor à Cultura Clássica. O preito do Doutor José Ribeiro Ferreira aos Mestres é um exercício de gratidão a que toda a sociedade se deve associar. A pedra cúbica leva muito tempo a esculpir, por isso, este livro, “Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos”, é o encontro feliz de quem trabalhou a cinzel a sabedoria para encontrar a luz.(in Diário de Coimbra)

Publicado por António Vilhena às 08:15 PM | Comentários (0)

outubro 26, 2009

Na face da noite

Na face da noite uma coruja espalha o seu rufar exótico. Adensa-se o eco na amurada do silêncio, bruxuleante o voo rasga o breu entre acrobacias sedutoras. É a dança sensual da caçadora tacteando o céu onde repousam os mistérios do universo.

Publicado por António Vilhena às 09:18 PM | Comentários (0)

outubro 23, 2009

Pela mão vamos lá.

Pegou-lhe pela mão. Ela levantou-se a custo, olhou em frente e, com dificuldade, iniciou a marcha manca até desaparecer ao fundo da praia, onde ainda cheirava intensamente a maresia. A tarde ameaçava choviscar, soturnamente as pessoas passeavam pensativas, olhavam as montras com discreta curiosidade, caminhando indiferentes à calçada de pedra basáltica salpicada de branco. As pernas pediam-lhe paciência, a idade e a vida dura que enfrentou tiraram-lhe a força, agora tudo o que tem pressa pode esperar. Ver a vida com olhar paciente é como se recomeçasse a aprendizagem dos primeiros passos. Há sempre um retorno que nos concede o privilégio de encontrar um passado e revisitá-lo na galeria dos retratos, onde se passeiam os nomes e os lugares que se colaram pele.

Publicado por António Vilhena às 04:42 PM | Comentários (0)

outubro 22, 2009

O Amor é cruel

Impressionou-me a história de uma jovem Cisjordana que durante quatro dias rastejou por túneis até se juntar ao seu amor em Gaza. Esta notícia publicada no “Diário de Notícias”, de 18 de Outubro de 2009, com o título “O amor é cruel” vem confirmar aquilo que todos sabemos: o amor vence montanhas, ou seja, vence túneis e muito pó. O amor pode ser, também, uma manifestação de resistência, de coragem e de tudo ou de nada. Trata-se de um amor em tempo de guerra, de um amor capaz de vencer as fronteiras artificiais do ódio. Imagino os perigos que esta jovem correu até encontrar-se com o seu amado. Este, quando a viu sair do túnel onde a esperava, comentou que parecia que ela tinha saído do túmulo. O cenário de morte esteve sempre presente até ao derradeiro instante. Estes amantes escreveram uma das mais belas páginas da paixão. As trevas podem, assim, devolver a luz que alguns homens teimam em ocultar.

Publicado por António Vilhena às 03:11 PM | Comentários (3)

outubro 21, 2009

O véu da formiga

A encosta soalheira e seca era um dorso da natureza que permitia vislumbrar a planície, em volta tudo era infinito, infinitamente distante da pequenez do sonho. As sombras largas dos sobreiros acolhiam os animais à hora de mais calor, da sesta dos homens, dos zumbidos dos gafanhotos, das danças frenéticas das formigas de pernas gigantes que no carreiro se atarefavam. Às vezes, em compasso de espera recuperavam a ordem e lentificavam a marcha como se fossem numa procissão. A cerimónia tinha os seus rituais, era preciso esperar. Todas os convidados paravam. De repente, ao fundo do carreiro de sentido contrário, uma formiga, coberta por um véu, avançava lentamente. Percebe-se que algo de especial está para acontecer. Bastaram poucos segundos para uma multidão de formigas ensaiar uma dança de rabo, deixando no centro a formiga anfitriã. À hora do Sol a pique celebra-se a cerimónia de acasalamento da formiga alada. A descoberta foi acidental, eu estava lá a tentar descobrir no horizonte distante o mistério do universo, mas foi ali, junto aos meus pés, que a grande revelação aconteceu. Às vezes basta estar atento ao que parece comum para descobrirmos que o óbvio tem outros segredos.

Publicado por António Vilhena às 03:05 PM | Comentários (1)