fevereiro 04, 2010

A Babilónia de Alberto

Alberto João Jardim olha para o continente como o sítio onde moram os imperialistas, os colonialistas, os centralizadores; olha para o resto do país como um inimigo de guerra, o que, na sua narcisista aritmética, justifica todas as cruzadas do reino do fogo-de-artifício contra os vilões do Terreiro do Paço. A caricatura política a que nos habitou, repleta quase sempre de excessos e eivada de tiques anarquistas – dando a entender que está acima das leis da República -, atinge o seu zénite quando se trata de levar uns “trocos” para a sua Babilónia. A sua régua está cheia de buracos por onde se escoam os recados e as ameaças. Ninguém leva a sério o Xerife do principado madeirense mas, diz a tradição, quando se trata de contar votos na Assembleia da República, os deputados eleitos pelo círculo da Madeira costumam fazer umas birras que acabam quase sempre num aumento da contribuição para “o regabofe financeiro”. Ninguém compreende que quando o país vive uma grave crise económica e financeira, sem aumentos para a administração pública para 2010, com um défice que carece de uma terapia de choque e muitos sacrifícios a todos os portugueses, que Alberto João venha exigir, mais uma vez, um estatuto de excepção para a Madeira. Se é verdade que o combate ao défice se deve fazer, principalmente, pela diminuição da despesa, o governo madeirense deve ser solidário, também, com o resto do país. O escândalo é tão grande e afrontoso que o conselheiro de estado, Vitor Bento, indicado pelo Presidente da República, pronunciou-se, há dois dias, contra a proposta madeirense de alteração à Lei das Finanças das Regiões Autónomas. Na opinião de Vitor Bento, que substituiu Dias Loureiro no Conselho de Estado, “esta é uma polémica desnecessária, uma vez que a Madeira tem um BIP superior à média nacional, devia, por isso, ajudar as regiões mais pobres do país”. Ao ouvir a opinião de Vitor Bento tenho a certeza que Alberto já deu instruções, ao seu séquito, para inscrever o nome deste conselheiro na sua “galeria dos ofícios”. Quem não apoia Alberto é contra o reino das glicínias. É justo dizer que a pretensão de Alberto custa aos cofres do erário público qualquer coisa como 80 milhões de euros, para acrescentar a uma dívida directa de mais de 1 100 milhões de euros. Acresce, ainda, dizer que desde o ano de 2000 a dívida indirecta do governo de Alberto aumentou – imagine-se -, em mais de mil por cento. Estima-se que a dívida global da Madeira seja de 6000 milhões de euros, ou seja, mais de 125% do seu Produto Interno Bruto regional. Para curiosidade fica este dado: o governo de Alberto deve às farmácias locais mais de 83 milhões de euros, o que ultrapassa o valor de 80 milhões de euros solicitado. Os portugueses têm dificuldade em perceber o PSD. Por um lado vem exigir um Orçamento de Estado para 2010 de rigor e de contenção de despesas e, depois, quando se trata da Madeira, faz tábua rasa daquilo que exige para o resto do país. Esta dualidade de critérios em que trata de forma desigual o que é igual é no mínimo estranha e criticável. Também o presidente da distrital do PSD tem vindo a público tecer alguns comentários sobre o PIDDAC de 2010 para Coimbra. Num quadro de rigor e de responsabilidade política o governo assegurou um conjunto de investimentos estruturantes que garantem no distrito um investimento de mais de 45,7 milhões de euros. E no concelho de Coimbra entre outros investimentos vultuosos de que destaco 14, 7 milhões para o Hospital Pediátrico, 1,7 milhões para o Museu Machado de Castro, 1,6 milhões para Pólo III da Sub-Unidade 3 da Faculdade de Medicina, 1,7 milhões para a Requalificação da Alta, 1,3 milhões para o Aproveitamento Hidráulico do Mondego, 4 milhões para o Metro Ligeiro, etc. Refiro ainda que a REFER e a RAVE vão investir mais de 80 milhões e que não vem no PIDDAC. Coimbra, merecidamente, tem um volume de investimentos de que dificilmente qualquer outro concelho do país se pode orgulhar. Não adianta o líder distrital do PSD vir falar em “desinvestimento” do Estado em Coimbra, porque ninguém pode levar a sério estas afirmações. Alguns responsáveis do PSD têm critérios diferentes quando olham para a Madeira e para o resto do país. Defendem quando dá jeito as finanças públicas e depois franqueiam a porta do cofre para agradarem aos interesses partidários do Chão da Lagoa. Quando se quer ganhar as graças dos militantes é preciso dizer alguma coisa que alimente o ego e traga esperança, mas não se pode esconder a verdade dos investimentos em Coimbra. Este governo ficará na história como sendo aquele que mais investimento fez, em Coimbra, nos últimos 50 anos. (in Diário de Coimbra)

Publicado por António Vilhena às 12:01 AM | Comentários (0)

fevereiro 02, 2010

2000 VISITAS

É sempre simpático quando alguns amigos espreitam pela nossa janela para saberem como vai a nossa vida. A oportunidade faz a ocasião e, por isso, outros fazem o mesmo. Só assim se compreende que um cantinho discreto tenha tido 2000 visitas.

Publicado por António Vilhena às 11:47 AM | Comentários (1)

janeiro 21, 2010

Por Manuel Alegre

Não se pode agradar a gregos e a troianos. Na vida há sempre quem goste e o seu contrário. Mas a inveja continua a ser o pior dos males da humanidade. No caso de Alegre, os que não gostam dele - e não me refiro aos adversários políticos de direita -, são muitas vezes as figuras de segunda linha, personagens sem voz e sem luz próprias que arremessam pedras para disfarçarem a má consciência da sua própria morte sem memória futura. Eu compreendo alguns desabafos, mas também sei que o azedume de alguns camaradas do meu partido (PS) é tudo, menos tolerante. Que cada um assuma as suas responsabilidades. Não devem levar a mal que Manuel Alegre tenha escolhido fazer o seu destino, que tenha feito opções arriscadas, que tenha decidido pela sua cabeça. Fernando Pessoa dizia que a “vida é de quem a conquista e não de quem a sonha conquistar ainda que tenha razão”. O poeta da “Trova do vento que passa” cedo compreendeu que há um tempo para resistir e outro para agir. Quem escolhe fazer o seu destino, a “moira” de que falavam os gregos, será sempre um alvo fácil de crítica, principalmente, por aqueles que se sentem desconfortáveis na sua própria pele, por aqueles que não iluminam nem o seu próprio umbigo. O mundo está cheio daqueles que diziam que Obama não tinha hipótese de ganhar nada. Por cá, essa semente daninha tem alguns defensores oficiosos que argumentam no seu castelo as suas inverosimilhanças. Quem ousa agigantar-se contamina sempre as multidões. É este espírito que Portugal precisa. Os portugueses esperam que Manuel Alegre seja igual a si próprio, que traga emoção e esperança, que fale claro e que a sua voz tenha o timbre que envolve os corações de cada um. Estamos fartos de tecnocratas, de gente “qualificadíssima” que se esquece quase sempre de falar das pessoas, mas que lembra a todo o instante a frieza dos números, como se o mais importante fosse a economia e não a política. Os politólogos do momento encaixam no puzzle liberal onde desaguam os mentores da insensibilidade social. Por isso, Manuel Alegre é a metáfora de um rio que transborda para as margens as palavras que se afeiçoam aos afectos, onde aqueles que nada têm soletram no olhar do poeta a emoção que os liga. O povo gosta de gente que se emociona, que chora, que sofre com a dor dos outros, que é capaz de golpes de asa, que resiste aos caminhos mais curtos. Quando eu decidi apoiar Manuel Alegre nas últimas eleições um coro de espanto e de admiração toldou aqueles que me eram próximos. Não estranhei as críticas nem as deslealdades. Achei normal a divergência. Agora será mais fácil para aqueles que estiveram contra juntarem-se a esta corrente imparável que se sente todos os dias, como se antecedesse a festa premonitória. A esses, que não estiveram com Alegre nas últimas eleições presidenciais, digo-lhes que chegou a hora de o fazerem. Ele representa um projecto de esperança, é capaz de unir a esquerda em torno do essencial, dos seus valores e dos seus princípios. Portugal tem uma história de séculos fundada numa matriz de cultura e de humanismo, de tolerância mas, também, de coragem. Ele personifica tudo isto, ele é o insubmisso que leva consigo a herança de um passado comum que falta cumprir-se. Eu quero um Presidente que conheça a história de Portugal, que saiba interpretar a diáspora, que recupere o melhor do nosso cosmopolitismo; eu quero um Presidente que tenha orgulho na palavra Pátria, onde cabem todos os nossos heróis, os nossos poetas, os filhos daqueles que construíram o Mosteiro dos Jerónimos, os filhos daqueles que construíram as caravelas, os filhos daqueles que sem nome de família foram dando “novos mundos ao mundo”. Eu quero um Presidente que tenha “saudades do futuro”, que não vete os direitos daqueles que são diferentes, que exerça a magistratura de influência para aumentar a auto-estima nacional. Eu quero um Presidente em que o verbo rime com uma lusofonia de acolhimento e não de exclusão. Eu quero um Presidente com espírito erasmo onde os mitos fundadores renasçam. O regresso de Manuel Alegre activa as utopias que o imaginário nunca dissolve.(in Diário de Coimbra)

Publicado por António Vilhena às 12:15 AM | Comentários (1)