novembro 16, 2009
Os muros também se abatem.
O “Muro da Vergonha” é uma memória triste. Aqueles que não viveram na pele a privação da liberdade, a separação da família, o luto da sua rua, do seu bairro, dos seus amigos, nunca poderão sentir da mesma maneira as comemorações dos vinte anos da queda do Muro de Berlim. Pode-se imaginar, pode-se comungar o espírito e a revolta, mas nunca como um Berlinense. Tal como o 25 de Abril de 1974 não pode ser comemorado por um francês, um alemão ou um japonês da mesma maneira que um português que viveu sob a ditadura de Salazar, que sentiu na carne as garras fascistas. A efeméride a que o mundo se associou encerra múltiplos significados. A reunificação alemã é mais do que o reencontro com a história, é a evocação da matriz de uma Europa assente nos valores da liberdade e da tolerância. As sequelas do muro permanecerão, ainda, durante muito tempo na vida dos alemães como um tempo de vergonha e de medo, como uma estranha ocupação. Mas o “muro” ocupou, também, o imaginário civilizacional. Durante quarenta anos foi um obelisco omnipresente nas fronteiras do livre pensamento, serviu para dividir o mundo entre dois blocos: o ocidente e o leste, ou seja, o mundo livre e o mundo da ditadura do proletariado. Mas quantos muros existem ainda espalhados pelo planeta? A luta pela liberdade não pode ser separada de outros direitos. Não se é livre quando não se tem trabalho, quando não se tem habitação, quando não se pode votar em consciência. As fronteiras do Ser são muitas vezes ocultadas pela máscara dos interesses. O mundo está cheio de pobres, de gente sem voz, que não tem força para lutar pelos seus direitos, que não tem sindicatos, que não tem corporações, que não tem acesso à saúde, que não tem saneamento básico, que não tem dinheiro para mandar os filhos à escola, que não tem esperança. Esta realidade cerca-nos como um muro que, também, nos deve envergonhar. Obama já percebeu que há uma América dos privilégios e uma América dos sem-abrigo, dos doentes, dos desempregados, dos excluídos, dos sem-nome. É por estes que devemos colocar o melhor do nosso esforço para que estes “muros” não inibam ninguém dos seus direitos.
Agora que o “Tratado de Lisboa” foi, finalmente, ratificado abre-se um capital de esperança para a União. A Europa pode e deve ser uma voz no mundo da diplomacia internacional capaz de fazer a diferença na defesa dos valores do Homem. A construção europeia é uma longa caminhada, à semelhança de uma catedral, as pedras levam o seu tempo a esculpir, mas o molde carece de um instrumento principal que há-de consolidar o templo de Jean Monnet: a inteligência e a tolerância. A construção da casa que Jean Monnet imaginou tinha na memória descritiva uma Europa sem muros, como metáfora concreta do pensamento universal onde cada homem tem direito a exercer o livre arbítrio numa relação de vizinhança sem descriminações. Os muros depois do muro permanecem dentro de nós.(in Diário de Coimbra)
Publicado por António Vilhena às 11:50 AM | Comentários (0)
novembro 10, 2009
O Muro
Passaram vinte anos sobre o derrube do muro de Berlim. Quantos anos serão necessários para reduzir a pó as cicatrizes desse passado ignominioso que esquartejou um povo e uma Europa? Ainda que o muro já não exista fisicamente, ele permanece nas vidas daqueles que foram vítimas da separação. Muitas famílias ficaram amputadas, os afectos foram congelados por uma ditadura stalinista que sem escrúpulos acantonou um povo atrás de um muro de vergonha. Estas comemorações têm duas faces: de um lado os saudosistas que lacrimejam o poder perdido, do outro, os amantes da liberdade que içam os valores da tolerância. Esta efeméride serve, também, para lembrar que persistem, ainda, outros muros reais que são urge derrubar. A humanidade precisa de reflectir sobre a sua história para continuar a pugnar pelos liberdade como expressão da tolerância máxima e da solidariedade entre as diferenças
Publicado por António Vilhena às 12:03 PM | Comentários (1)
novembro 03, 2009
Jardim de Acasos
Misturava as folhas para construir um jardim de acasos. Coleccionava folhas, cuidava delas como a melhor especiaria, envernizava-as e, depois, com táctil sensibilidade colocava-as numa parede da sala de aula. A paciência era a sua grande qualidade. Os seus alunos viam crescer aquela espécie de "folhário", trepadeira com arte, que se espalha em todas as direcções, em busca de um sentido para o acaso. Às vezes, a desordem confere uma estética inefável que nos envolve nas baínhas e no galope da expansão.
Habituados a olhar a natureza com espanto e intimidade, os alunos associaram cada folha a uma palavra que despertasse a angústia de cada um. Ao longo dos dias seguintes, a espiral criativa deu lugar a um texto pós-modermo, cerzido com invisíveis janelas de luz, acessíveis apenas a quem foi capaz de se entregar à cumplicidade das emoções.Frente-a-frente duas paredes: uma de folhas, outra de palavras. Assim nasceu o Jardim de Acasos, onde as folhas e as palavras se enamoram à distância de uma sedução.
Publicado por António Vilhena às 02:44 PM | Comentários (2)