maio 10, 2012
François Hollande, o inspirador.
A esperança é quase sempre o último reduto quando tudo parece ruir, quando o vento impressiona os sentidos e os defensores de profecias trágicas persistem em anunciar os benefícios de duches frios. Os novos sinais que chegam da Europa atordoam os adamastores, peregrinos virados para Berlim, sempre dispostos a irem mais além para mostrarem serviço e qualidades de subserviência. A vitória de François Hollande, em França, já teve consequências em Portugal. Ainda está muito presente o esforço que António José Seguro fez para acrescentar ao Tratado Europeu uma adenda que tivesse em conta o crescimento económico. E o que é que aconteceu? A maioria que governa Portugal chumbou essa proposta, argumentando que o mais importante era ter uma agenda de austeridade, esquecendo o impacto que essa política cega tinha na vida dos portugueses. Foi nessa altura que António José Seguro desejou boa viagem a Passos Coelho, não podendo este contar com o PS para fazer esta viagem, que mais se parece com uma aventura sem regresso. Mas o mais incrível aconteceu. Depois da vitória de Hollande, os sociais-democratas portugueses apressaram-se com uma resolução, onde defendem aquilo que os socialistas sempre defenderam, que se tivesse em conta o crescimento económico e o desemprego. Este comportamento dos sociais-democratas, que dizem uma coisa hoje para dizerem o seu contrário amanhã, parece ser uma imagem que se cola à pele deste governo. O mais evidente é o “diz que disse, mas não garante” acerca dos subsídios dos portugueses. Passos diz uma coisa e Gaspar, com voz irritante e monocórdica, vem dizer que não se pode responsabilizar por aquilo que o primeiro-ministro disse, que os subsídios sejam repostos, lentamente, a partir de 2015. A incoerência e a falta de preparação estão a derrotar este governo. Os portugueses sabem que no passado houve erros, mas já penalizaram essas políticas nas eleições. Agora, temos um governo que obedece à batuta merkeliana, que não sabe o mínimo de harmonia, mas que desafina e fere a paciência dos que diariamente desesperam. A música é outra na Europa e Passos Coelho tenta afinar a sua orquestra para nos continuar a ferir os tímpanos. Este governo não vai chegar ao fim da legislatura e o Partido Socialista não deve tolerar um governo insensível que faz tudo para acabar com o Poder Autárquico, o Serviço Nacional de Saúde e a Segurança Social. O Tratado Europeu parece ser cego e mudo às pessoas, preocupa-se apenas com os mercados, com os especuladores, com a banca e com o que dizem as agências de Rating. É este autismo político que tomou conta do bom senso e daqueles que nos governam. A persistência no erro assume contornos de traição nacional se os interesses estrangeiros se sobrepõem ao dos portugueses. A esquerda venceu em França. Mais do que a ideologia ganhou a esperança, abriram-se as portas acorrentadas que a direita liberal, afeiçoada a interesses obscuros e contabilistas, blindou com elevados custos sociais. Não sei o que o novo presidente dos franceses irá dizer quando se encontrar com Merkel, mas imagino que a chanceler irá mudar o discurso. A Europa entra num ciclo de mudança, traz um léxico novo mas, principalmente, aspira a mudanças substantivas para que a crise, bode expiatório dos especuladores e dos bancos alemães, não tenham como vício os mesmos de sempre. Os valores inspiradores da Bastilha percorrem os corações dos europeus, principalmente, dos gregos. A vitória de Hollande foi, também, sentida pelos herdeiros de Ulisses na sua viagem de regresso aos valores inspiradores de uma Europa que todos dizem respeitar, mas onde alguns querem reavivar velhos radicalismos. Por cá, Hollande obrigou Passos a defender “uma nova visão para a União Europeia”. Se não fosse ridículo era, com toda a certeza, uma imitação fraudulenta. Os franceses e os gregos já chumbaram o Tratado Europeu da austeridade e da insensibilidade social. Chegará, também, a nossa vez! António VilhenaPublicado por António Vilhena às 12:02 AM | Comentários (0)