abril 29, 2009
A vida é uma longa paciência
Ali, naquele lugar sem pressa, o tempo escorre, parece o fim do mundo, cada passo é uma lenta reflexão sobre a existência, uma brisa pueril que bafeja os espíritos, um rufar de sons na paisagem. À beira de um livro, Jocasta impacienta-se, toda a demora é uma eternidade quando se deseja, quando os sentidos convocam as emoções para o labirinto do amor. Ela sabe que a vida é uma longa paciência, uma espécie de ofício que desafia o que de mais frágil existe dentro de nós. Jocasta traz a incerteza das aves migratórias, não sabe se chega, não sabe se volta. Ocupa-se a imaginar o que existe para lá da linha do horizonte, onde desconfia que outros mundos oferecem barcos aos náufragos e rosas às noviças. Aquele livro é a sua companhia, faz parte da mala de primeiros socorros, apazigua-a, baixa-lhe a ansiedade, é um comportamento de segurança, basta tê-lo à distância de uma mão para deixar de sentir a angústia de estar só. Às vezes, precisa de ler apenas umas palavras, o suficiente para se reencontrar com as emoções e a beleza. Esse livro era a metáfora de uma mão ausente, de um abraço, da paixão derramada na pele.
Publicado por António Vilhena às 11:57 AM | Comentários (1)
abril 28, 2009
Trinta anos sem beijos
A vida supera quase sempre a ficção. As pessoas que se cruzam connosco nos locais, que frequentamos diariamente, encarregam-se de mimar a nossa existência, basta que lhes dediquemos o mínimo de atenção. Sinto todos os dias esta afectividade, principalmente, nas pessoas simples, naquelas que vendem jornais, pão, café, hortaliças ou outro produto essencial. Esta gente é simpática, afável, sorri, ajuda e ainda tem disponibilidade para o humor.
Ao procurar trocar moedas - para alimentar uma daquelas máquinas que inventaram para trocar tempo de estacionamento por dinheiro -, numa lojeca de bairro, a senhora da caixa foi lesta no troco. Mas, quando eu estava já a sair, ainda arranjou tempo para me dizer:
- Gosto muito daquilo que escreve no jornal.
Fiquei estarrecido. Não imaginava que as minhas crónicas tivessem ali, naquele cubículo, uma leitora improvável. Olhei para a senhora, que me pareceu ter mais de meio século, agradeci-lhe e perguntei-lhe:
- Posso dar-lhe dois beijinhos?
- Pode dar muitos. Há mais de trinta anos que ninguém me dá um beijo.
Fiquei emocionado! Tentei compreender a sua tristeza, mas sei que não a posso compreender se não conhecer a sua história de vida. A necessidade de moedas trouxe-me este inefável encontro de emoções.
Publicado por António Vilhena às 09:26 PM | Comentários (1)
Paixão
Chegar de mansinho, trazer uma nuvem branca salpicada de azul, servir chá ao som das águas do rio, ouvir a música que evoca o primeiro beijo, colocar os pés em cima da cadeira, fechar os olhos e começar a viajar com a companhia que sempre quisemos. É fabuloso! Conseguir esta façanha é ter tempo, ter elevação de espírito, ser livre e cultivar a paixão.
Publicado por António Vilhena às 10:56 AM | Comentários (3)
abril 27, 2009
Intiligência emocional
Este novo conceito da Psicologia foi beber o seu equivalente a Aristóteles, à sua ideia de equilíbrio, de nada em excesso, muito grego. A inteligência emocional é esse esforço de combinação entre emoção e razão, sem que haja ascendente de nenhuma das partes. O mais interessante deste conceito, é que as pessoas que são capazes de potenciar o seu uso, são aquelas que sabem ler as emoções dos outros, adequando a sua resposta.
Publicado por António Vilhena às 03:43 PM | Comentários (0)
Lágrimas
As lágrimas sempre foram usadas como meio de sustentar uma emoção no cinema, no teatro, na pintura e na fotografia. Mas a verdade é que as lágrimas são exclusivo dos humanos. Quando estamos tristes ou angustiados a probabilidade de chorarmos aumenta. Chorar não é fácil, mas quando activamos determinadas emoções e choramos parece que ficamos aliviados. O cientista William Frey defende que as lágrimas servem para libertar as hormonas do stresse. Apesar de existirem outras teorias, esta parece uma boa explicação.
Publicado por António Vilhena às 02:18 PM | Comentários (2)
Emoções básicas
Sabia que todo o ser humano, qualquer que seja a sua cultura, tem as mesmas emoções básicas?
Muitos autores divergem quanto à designação e número, mas pode-se considerar que são a alegria, a angústia, a raiva, o medo, a surpresa e a aversão.
Estas emoções acompanharam o homem, ao longo da história da espécie, permitindo a sua defesa.
Publicado por António Vilhena às 12:02 PM | Comentários (2)
abril 24, 2009
Madrugada de 24 de Abril de 1974
Esta era a madrugada que trazia nomes e flores. Esta era a madrugada que em silêncio despertava o futuro dos sonhos sem algemas. Esta era a madrugada em que a minha mãe me beijava a testa, para que os dragões não viessem assustar o menino. Esta era a madrugada que escondia outros medos içados ao vento nas palavras dos poetas. Esta era a madrugada que me devolvia para sempre à intimidade da família e dos amigos. Não iria fazer a guerra, não viria extropiado, amputado, cego, nem num caixão de chumbo. Não mataria, não deixaria órfãos os filhos de ninguém, não enlutaria víúvas e mães. Esta foi a madrugada radiante, aquela que antecipou os nascimentos do Rodolfo e da Susana. Há madrugadas que iluminam séculos de história.
Publicado por António Vilhena às 07:44 PM | Comentários (1)
Presente Roubado
Chamava-lhe, amorosamente, nomes que lhe adoçavam o ego, tinha planos para viagens e leitura de livros, planos para construir uma casa ampla, com entradas de luz que lhe permitisse usufruir da intimidade da arquitectura. Tinha sonhos e Rosa sabia que as suas mãos poderiam afagar as estrelas.
Naquele dia esperava a sua visita. O dia era apenas o do seu aniversário. Tinha responsabilidades a cumprir, textos para entregar na revisão, responder a cartas, receber clientes e, no final da tarde, talvez conseguisse ir ao encontro do Miguel, na Smarta, um salão de chá com decoração dos anos vinte.
Recebeu alguns telefonemas a lembrar-lhe que se lembravam dela, que era bom fazer anos, que o dia estava lindo, que ...que...enfim. Mas se havia dias em que não queria pensar, aquele era um deles. As suas memórias de infância não a deixavam confortável na evocação dessas efemérides. O melhor desse dia ainda estava para chegar.
E chegou. À hora marcada, na Smarta, o Miguel apareceu. A sua alegria escorria-lhe pela camisola à riscas verticais, enquanto na mão direita agarrava um embrulho de papel tosco com uma rosa agrafada.
- É para ti.
Rosa olhou o embrulho e a rosa. Não havia fitas bonitas a segurar o papel, mas uma corda despenteada que, depois de várias voltas, terminava com um vetusto laço. Lá dentro um livro: L`Amour Fou, de André Breton.
- És a melhor paixão!
- Este é um presente especial. Roubei o livro e a rosa. O papel de embrulho e a corda estavam à porta da farmácia.
Publicado por António Vilhena às 12:34 PM | Comentários (1)
Melancia Arrebitada
A entrevista do Primeiro Ministro à RTP, na passado dia 21/4/09, veio demonstrar que nem sempre o que se diz deve ser levado muito a sério. Não me refiro às respostas e aos argumentos de José Sócrates, mas às informações difundidas a propósito do caso Freeport que a jornalista Judite de Sousa requintou de forma “inteligente” para emparedar o entrevistado. Confesso que, desde há muito, me apercebo que a jornalista acima referida tem diferentes graus de humor e de simpatia conforme o seu entrevistado se situa à esquerda ou à direita. Para confirmar esta minha opinião, basta passar em revista a sua jóia da coroa: A Grande Entrevista. Quando os entrevistados são de direita ela deixa-os conduzir a entrevista, quando são de esquerda são atropelados pela sua compulsiva interrupção, não deixando terminar os raciocínios e as respostas. Em suma, uma jornalista que não pergunta da mesma maneira, que não é cordial da mesma maneira, que assume sem pudor o papel do areópago. A televisão não engana, o seu descontrole e ira demonstrados na entrevista ao Primeiro Ministro, a sua voz musculada e rosto apimentado constituíram elementos suficientes para poder dizer que a montanha pariu um rato. Foi uma noite difícil e um momento mau para Judite de Sousa. Tenho a certeza que ela já terá feito a pergunta: O que é que me correu mal? Talvez eu possa ajudar. Um pouco mais de humildade teria ajudado, um pouco mais de simpatia e isenção teriam contribuído para descontrair a atmosfera tensa da entrevista e, finalmente, um pouco menos de sectarismo. O desempenho de José Sócrates foi notável, mostrou músculo e inteligência. Depois desta entrevista nada será como dantes, os justiceiros da praça, os cobardes e infiltrados que tentam ter ganhos com a tentativa de assassinato político do Primeiro Ministro, ficaram a saber, se ainda tinham dúvidas, que as eleições ganham-se nas urnas. A seu tempo muitas questões serão esclarecidas. A justiça deve ser célere, contribuindo para o prestígio de um dos pilares fundamentais da democracia: a credibilização do sistema judicial. O arrastar deste processo, a investigação morosa, propicia o aparecimento de versões e de insinuações sobre pessoas, o que não contribui em nada para o apuramento da verdade. Mas talvez esta morosidade interesse a alguns. A prova do fogo a que está sujeito o PS nos próximos meses deve exigir aos seus mais notáveis militantes que pratiquem a sua militância, ou seja, que tenham voz, que discutam e argumentem com pluralismo e respeito democrático, que sejam capazes de se disponibilizarem para o combate político, que não se fechem nas suas capelas em solilóquios narcisistas. O momento é daqueles que são capazes de ser diferentes e ousados, que não trazem a máquina de calcular nos bolsos para votar contra só porque o rio não lhe corre para a Europa. Há uma plêiade de amuados no Partido Socialista que julgam ter bilhete para entrar e sair sem passar cavaco a ninguém. Em Coimbra as coisas estão a mudar, respira-se ainda o tédio de antanho, mas já se ouvem vozes da ira que percorrem as consciências dos militantes que sabem o nome do porteiro quando se trata de respeitarem os princípios e os valores do PS. Há muitas melancias arrebitadas que não vão chegar ao Natal com vontade de mostrar a cara. Finalmente, uma palavra para o meu camarada Carlos Cidade, que defende o PS na Assembleia Municipal de Coimbra. A direita que te combate politicamente, nessa Assembleia, sabe que és trabalhador, sabe que cresceste a pulso, sabe que és determinado, sabe que não desistes. Sabe tudo isso e muito mais. Por isso, combate-te com argumentos de corte, com palavras miseráveis que desqualificam quem as pronuncia. (in Diário de Coimbra)Publicado por António Vilhena às 10:49 AM | Comentários (1)
abril 22, 2009
Primavera
A manhã chega ensonada, envolta na neblina que a noite alimentou, vem pela mão dos primeiros raios de Sol bafejar os que se abeiram das margens do quotidiano. A Primavera parece ter regressado para colorir as feições e os afectos, para derramar os aromas na pele e incendiar o desejo em cada viagem. A luz puída, que atravessa a folhagem do jardim, é uma cítara espalhando a melodia no vasto chão das memórias da terra. Todos os cheiros não fazem um único beijo de paixão. É preciso soletrar na intimidade as discretas confidências do silêncio. Depois, o impossível tem outros nomes, outros destinos que desaguam nos sonhos de cada um.
Publicado por António Vilhena às 10:30 AM | Comentários (1)
abril 21, 2009
Direitos das crianças.
Depois da imagem da Criança, do silêncio e da inquietação, da revolta e da mágoa que ela encerra, tudo o que se possa imaginar, para além das emoções perturbadoras, é um desconfortante sentimento de incomodidade. Milhões de crianças, seres indefesos e frágeis, são vítimas da irracionalidade dos adultos, da irresponsabilidade daqueles que têm o dever e a obrigação de pugnarem pelo seu bem-estar, pela educação, pela cidadania. Aos Estados cabe assumir as suas responsabilidades, mas a crueldade humana é uma herança ancestral que persiste ainda no século vinte um. Se cada um de nós fizer alguma coisa, por pouco que pareça, contribuirá para trazer o rio da dignidade ao seu leito, ou seja, devolver uma cultura de responsabilidade e de humanismo que honre os direitos das crianças.
Publicado por António Vilhena às 12:55 PM | Comentários (2)
abril 20, 2009
Sem Imagens
Publicado por António Vilhena às 06:39 PM | Comentários (0)
Sem Palavras.
Publicado por António Vilhena às 11:31 AM | Comentários (0)
Percepções
I O tempo divide e não espera. O rio corre e não chega. a rosa cheira depois morre II A noite aconchega os corpos O álcool mistura a dor.Publicado por António Vilhena às 11:26 AM | Comentários (0)
Abril em Beja I
No dia 25 de Abril de 1974 estava em Beja. Recordo-me que em frente à escola que frequentava havia um jardim onde costumávamos jogar futebol. Nesse dia, a meio da manhã, no intervalo da escola, lá estávamos todos, eu e os meus colegas, a correr atrás da bola. De repente, pára um carro da polícia, um carocha, e em tom autoritário um polícia sai do carro, apanha-nos a bola e diz-nos: Acabou! Ficámos todos a olhar uns para os outros, sem bola, e sem percebermos se aquela enigmática palavra -acabou -, nos traria a bola de volta. Nunca mais. Ficou-me sempre esta mágoa, de ter sido o último acto do regime, pelo menos para mim: roubar uma bola. Irónico e trágico.
Publicado por António Vilhena às 12:12 AM | Comentários (0)
A Promessa III
Perguntava, como se a fé na Nossa Senhora dos Prazeres a pudesse ajudar, como se pudesse interrogar o destino, confundi-lo, semear-lhe a dúvida, impedir o seu amor de ir embora. Devia ser proibido mandar alguém apaixonado para a guerra, a violência maior é a do silêncio quando o eco do enamoramento se perde na paisagem. Não adiantava fingir, a vida escorria e as badaladas do relógio da igreja confirmavam com indiferença a sucessão dos dias. Se não houvesse alterações, o Pedro embarcaria no último dia do mês de Outubro, restava-lhe viver todos os instantes, embora soubesse que não podia antecipar o futuro. Ninguém pode viver antes do tempo o que só com ele se respira.
Apesar do veredicto, Sara acredita na causa que contraria os incrédulos e esculpe nas veias a voz da razão. Entretinha-se a contar os dias, a sua obsessão era o último adeus, fixar o instante em que os olhos perderiam de vista o rosto luminoso do seu príncipe. Decantava com paciência as tarefas que lhe podiam aliviar os pensamentos. Para isso, ajudava a mãe nos preparativos da festa dos vinte cinco anos de casada - imaginava-se, também, a ter uma festa assim. O pai, o senhor Capela, tinha feito apenas uma exigência: que fosse o padre Alberto a dar a missa, pesar de ter quase oitenta anos.
Todos os dias, com passo firme, visitava a paróquia, um ritual que conhecia de cor desde que respondeu ao chamamento. Cedo se afeiçoou às gentes do Alentejo, ali deu os primeiros passos no seminário, baptizou todas as crianças da freguesia. Considera-se um filho desta gente, que desde sempre cedo o acarinhou. Facilmente se deixou contagiar pelo segredo da planície: a sua luz e a infinita quietude moldaram-lhe o carácter. Apesar de transmontano, interpretou a solidão que povoa cada homem como se o vento suão lhe revelasse o mistério da terra que o cante embala e perpetua. Considerado por todos, amigo de todas as horas, as suas palavras trazem sabedoria e simplicidade, cortam a pele e semeiam a paz. Talvez, por isso, o senhor Capela insista em querer o padre Alberto nas bodas de prata.
Sara está empenhada em ajudar a mãe, nada é deixado ao acaso. Até a igreja tem de ser decorada com papoilas, como há vinte cinco anos. Apesar da satisfação em preparar a festa dos pais, não consegue esconder a tristeza. Há um ciclone devastador que lhe nasce no olhar, um desassossego sem morada que lhe persegue os passos e até as árvores lhe parecem órfãs de Primavera. A cada minuto, o sol ameaça enclipsar-se com o navio que há-de confundir-se com a linha do horizonte. É um sentimento confuso que lhe lembra a véspera da partida do pai para a Suíça.
A azafama contagia a família e os amigos, cheira a festa, as ruas são caiadas, as árvores recebem balões e as ombreiras das portas iluminam-se com cachos de lâmpadas. E não é para menos, a felicidade do casal Capela é apenas o pretexto para a celebração de outras efemérides. A padroeira, Nossa Senhora dos Prazeres, protege todos os que ousem gostar de figos e mel, por isso, todos os anos os rapazes oferecem às raparigas um cesto com essas iguarias, uma forma de lhes adoçarem a boca e o coração. Foi, também, numa dessas festas que o casal Capela se conheceu, daí a devoção à Santa. Há, ainda, quem diga que os jovens enamorados na romaria têm boda abençoada e cria criada.
Os dias passaram, os preparativos chegaram ao fim, o padre Alberto mais uma vez aceitou dizer a missa e as trovoadas espalharam o pânico. Porém, havia quem considerasse esses sinais do céu um agradecimento dos deuses. Mas à hora marcada, o sol chegou ímpio, as nuvens desfizeram-se como velhas amigas e o padre Alberto saudou com voz coloquial todos os que se encontravam na igreja.
Na primeira fila, com fato azul às riscas e gravata de cornucópias, o senhor Capela ladeado pela sua mulher dona Sabina, elegantemente vestida de verde alface, saltos altos e mala de cerimónia, emprestavam ao momento a solenidade necessária. Ouviram o coro da capela entoar cânticos que lhe traziam à memória esse dia distante aclamado por amigos e familiares; tempos difíceis, por isso, seguiu o caminho da emigração. A terra dos outros é sempre um lugar distante. Os nomes das ruas da nossa terra alimentam o imaginário e emprestam dignidade a quem nelas vive.
Toda a freguesia compareceu na igreja, saudaram o casal e, à saída, um grupo coral fez estremecer a terra e o sol que já se curvava sobre os olivais. Pouco depois, uma nuvem negra trouxe de mansinho a noite e o baile, momento esperado pelos mais novos. Com vestes a rigor rapazes e raparigas procuram a sorte, tentam descobrir entre danças e olhares sinais de encantamento. Mas este baile tem para a Sara e o Pedro um significado especial, por isso, dançam sem parar, olham-se, fixam-se demoradamente, a música marca o compasso dos movimentos. Ela está deslumbrante, com um vestido negro, justo ao corpo, e um decote em V, todas as formas parecem tocadas pela perfeição. Ele sabe que a estrela mais brilhante da galáxia está à distância das suas mãos, sente a sua respiração, parece tocar uma deusa. As coisas belas impregnam-se nos sentidos e misturam as emoções, devolvem um sentido relativo à urgência, o que importa em cada instante é esse instante, único e intransmissível.
Ainda a noite escorria a meio quando um sussurro intimista despertou em Sara uma inesquecível reacção.
-Quero fazer-te um pedido.
Soava a confidência, o barulho da música levou Sara a aproximar-se.
-Um pedido?
-Sim. Gostaria que esperasses por mim.
Os olhos dela transformaram-se em duas fontes e com voz trémula, disse:
-Prometo.
Publicado por António Vilhena às 12:09 AM | Comentários (0)
abril 19, 2009
A Promessa II
Publicado por António Vilhena às 09:24 AM | Comentários (0)
A Promessa I
Agosto é o mês dos reencontros, das noites quentes e luar derramado. A luz parece coada num cristal, espalha-se nas paredes brancas das casas e as sombras parecem véus.
Numa dessas noites, de baile, na romaria da Nossa Senhora dos Prazeres, ele acariciou-lhe a mão, sentia a humanidade toda naqueles dedos adelgaçados, buscava o mar nas veias azuladas. Percorria os dedos com paciência, em silêncio, como se deambulasse num prado. Havia nos seus olhos espanto e medo. Os seus dezoito anos, feitos dias antes, tinham ainda sabor adolescente. No intervalo da música, esboçou um olhar amendoado e disse-lhe:
- És o último sonho. Em Outubro, vou para a guerra.
Sara soluçou, nunca ninguém lhe dissera que ia para a guerra, foi como se a morte estivesse à distância de uma mão. Afinal, as guerras são encontros de homens onde as flores não decidem a paz, mas simbolizam a beleza e a vida. Nem o cheiro a rosmaninho, espalhado no recinto do baile, lhe evitou as lágrimas. Era preciso chorar. Era preciso confrontar o dias luminosos com as trevas de uma guerra distante. Ainda há pouco tinha experimentado o mundo do amor, tinha descoberto o prazer de ser mulher - nunca imaginara os segredos que o seu corpo ocultava, sensações tórridas, pulsões vulcânicas e vagidos de muitos sabores. Tudo isso era agora uma festa de emoções celebrada a dois sob o manto diáfano daquela notícia desconcertante.
Nos dias seguintes a paixão tornou-se numa obsessiva causa de encontros e o tempo era consumido entre beijos e carícias, uma espécie de hino ao prazer escrito na pele. Todas as tardes ele ia esperá-la à biblioteca onde trabalhava, chegava dez minutos antes da saída, ficava no passeio em frente a ver as pessoas, às vezes olhava mas não via, era uma presença ausente, os pensamentos levavam-no longe, talvez imaginasse o país que ia encontrar, as pessoas, a viagem de barco... Tinha ouvido muitas histórias sobre África: terroristas, caçadas e festas.
De repente, mergulhado num mar de pensamentos, irrompia ao fundo a sua paixão. Todos os dias, ao cair da tarde, os segundos pareciam eternidades. Ela esperava-o. Mal punha um pé fora da porta, varria com os olhos a linha do horizonte até encontrá-lo. Corria e lançava-se nos seus braços, entregava-se, havia neste ritual um misto de desejo e loucura. Ela sabia que esses instantes eram efémeros, por isso, vivia-os intensamente, até à exaustão. Dentro de alguns meses ele não estaria à sua espera, a rua estaria mais triste e o seu sorriso perder-se-ia entre a saudade e o receio de perdê-lo para sempre. Embora soubesse que era uma questão de tempo, tinha a sensação de ter perdido alguém muito antes de a ter conquistado, antes de a ter conhecido profundamente, era um sentimento que lhe dividia o coração. Lembrava-se como foi o primeiro encontro, como tinha sido diferente, como um livro podia ser uma ponte entre duas margens de silêncio e de desejo.
(este conto continua)
Publicado por António Vilhena às 12:47 AM | Comentários (1)
abril 17, 2009
Os Teus Olhos
Todos os dias reencontro
os lugares e as sombras
na esquina do tempo
símbolos vindouros
da geometria esculpindo
a silêncio o outro lado
de quem se ausentou
e não viu o dia seguinte.
Todos os dias o cansaço
no cansaço de uma fadiga
um rio vencido no leito
da noite luto das oliveiras
lacrimejantes de azeite
olhos de mel e espanto.
Todos os dias o inesperado
como se fosse lei não saber
e sobrasse sempre uma rosa
nas tardes dos dias grandes.
Ah!Demorar a ver é não ir
não beber a luz iniciática
morrer antes se a morte chegar.
Publicado por António Vilhena às 03:00 PM | Comentários (1)
17 de Abril de 1989, em Coimbra.
A 17 de Abril de 1989, a Direcção Geral da Associação Académica de Coimbra, presidida por José Manuel Viegas, organizou as comemorações dos 20 anos volvidos sobre a crise académica. Para isso, convidou imensas personalidades que acorreram a Coimbra nesse dia de evocação, de 17 de Abril de 1969, marco inesquecível na luta contra o regime fascista. As comemorações incluiram debates, sessões solenes, actividades culturais e outros eventos. Também nesse dia 17 de Abril de 1989,integrado no programa cultural, foi apresentado o meu livro de poesia Trança D`Água pela poetisa Natália Correia. A sessão decorreu no Teatro Académico Gil VIcente, em Coimbra. Honraram-me com as suas presenças inúmeras figuras ligadas às letras, de que não posso esquecer Fernando Dacosta, José Saramago e Nuno Júdice. Já passou muito tempo sobre este acontecimento inolvidável, mas trago-o à memória porque se comemora, hoje, os 40 anos da revolta dos estudantes em Coimbra. Na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra pode ser vista uma exposição de fotografias e recortes de jornais desse período histórico que abalou a ditadura.
Publicado por António Vilhena às 01:00 PM | Comentários (1)
Joyce Carol Oates
Joyce Carol Oates, conhecida por JCO, nascida em Nova Yorque, em 1938, é professora na Universidade de Princeton e membro, desde 1978, da Academia Americana de Artes e Letras. Foi agraciada, em 2003, com o Commom Wealth Award e o Kenyon Reviex Award. Autora de vários bestsellers como We Were the Mulvaneys e Blonde.
Entre nós pode ser lido The Faith of a Writer, editado pela Casadasletras. A Fé De Um Escritor reúne um conjunto de ensaios sobre as questões que envolvem um escritor no acto da escrita. As suas dúvidas, as suas crenças, a técnica, a inspiração, a solidão, o desepero perante a folha branca. As dúvidas de um ser humano que precisa de viver como os outros, mas que não o pode fazer. Como se cria? O que é um texto literário? Como se vive com os papéis debaixo da almofada? Eis, algumas inquietações com que o escritor tem de saber coexistir nas suas rotinas. Um livro a ler, porque ele desconstrói os lugares comuns da intimidade da escrita.
Publicado por António Vilhena às 12:26 PM | Comentários (1)
abril 16, 2009
Cobiça

Dormes na dobra do lençol com um livro aberto de luar onde o mar acaricia a noite e a estrela cadente ilumina a rota dos amantes.
Publicado por António Vilhena às 01:13 PM | Comentários (1)
O Belo é frágil...
Publicado por António Vilhena às 12:32 AM | Comentários (1)
abril 15, 2009
Soeiro Pereira Gomes, o centenário.
No centenário do nascimento de Joaquim Soeiro Pereira Gomes (Gestaçô, 14 de Abril de 1909 - Lisboa, 5 de Dezembro de 1949) um dos grandes nomes do neo-realismo literário em Portugal, importa relevar a sua importância na formação das consciências e na denúncia de injustiças.
Membro do Partido Comunista, dedicou-se a reflectir sobre as questões sociais, principalmente, sobre o trabalho a que eram submetidas as crianças. Assim, nasceu a sua obra mais conhecida e reconhecida: Os Esteiros. Romance integrado na estética do neo-realismo sobre o trabalho infantil na vila de Alhandra. Aborda a vida de jovens trabalhadores que, nas margens dos esteiros do Rio Tejo, fabricam peças de barro nos telhais.
Um grupo de garotos está no cerne da obra, sendo três personagens as mais expressivas: o estudioso Gaitinhas, o revoltado Gineto e o menino de rua Sagui.
É considerada a obra-prima do neo-realismo português da primeira metade de século XX.
Publicado por António Vilhena às 10:34 AM | Comentários (1)
abril 14, 2009
Invenção das Tardes
Invento as tardes se a tua ausência perpetua o movimento das sombras se a brisa demora e o chá arrefece na toalha de linho branco. Regresso à silhueta das máscaras à transparência dos teus olhos reencontro tranquilo das águas amor silencioso feito de palavras.Publicado por António Vilhena às 03:51 PM | Comentários (1)
Ilíada, de Homero.
Publicado por António Vilhena às 11:07 AM | Comentários (0)
Natália Correia
No dia 16 de Março de 2009 passaram 16 anos que faleceu a escritora Natália Correia. Efemérides? Conferências? Recitais? Nada disto, silêncio apenas. Sinal dos tempos? Talvez. Mas o trágico é que “os sub-alimentados do sonho” continuam a preterir uma voz que se há-de perpetuar na modernidade do futuro e a inspirar paixões que resvalam para lá do seu tempo. O país atento e literário começa a desfazer os nós da obra de Natália, um pouco por todo o lado; o mundo universitário começa a ultrapassar preconceitos e a manifestar sinais de interesse pela escritora açoriana. Uma ilustre Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Doutora Maria do Céu Fialho, esboçou um diagnóstico sobre o evitamento à obra da autora de A Pécora: A Natália queima. Esta opinião atenta, talvez ajude a compreender o lento despertar para uma obra que parece necessitar de tempo para apaziguar cérebros preconceituosos que teimam em assassinar os que se recusaram a beber do cálice da promiscuidade e do facilitismo. Quem a conheceu sabe que preservava a lealdade e a independência, era um espírito livre e insubmisso, com recursos irónicos disponíveis para socorrer qualquer provocação que se interpusesse. Passados todos estes anos do seu desaparecimento a construção da lenda é alimentada pelos seus detractores, menos, porque alguns já lhe fazem companhia no Hades, mas os seus amanuenses persistem ainda em travestir o essencial. O silêncio a que a “condenaram” é um boomerang que irá morrer nas mãos de quem ainda persiste nessa cruzada. Haverá quem cuide dos rituais para perpetuar o seu nome e a sua obra. Não há fome que não dê em fartura e a profecia será cumprida.
Outro tempo virá em que Natália será objecto de muitas homenagens e honrarias que lhe negaram em vida, depois virão as edições cartonadas para oferecer nos períodos de festa, o seu rosto será um ícone e todos os seus pensamentos concebidos como luxo prosaico para consumo doméstico. Os mal-amados têm este destino, reciclam-lhe a imagem, santificam a rebeldia e transformam a semântica em flores intemporais. Infelizmente, a autora de Sonetos Românticos não é exemplo único no panorama nacional. A inveja e a mediocridade calçam as pantufas para dissimularem o incómodo que lhes provoca o sucesso dos outros. Somos um país de “engenheiros” modelados pela inveja e a incapacidade para espreitarem para lá da linha do horizonte, por isso, somos ainda o país dos “inhos” – como bem lhe chamou Alexandre O`Neill.
Natália adorava Coimbra! Trouxe-a várias vezes a esta cidade, que identificava com Antero e, principalmente, com uma Academia viva e de vanguarda. A sua disponibilidade para os mais novos era incondicional, sempre afável para escutar e resoluta para erguer a sua voz por causas e valores. Coimbra era a cidade onde a utopia rimava com liberdade, onde se sentia feliz e mimada, onde o Mondego lhe reavivava o drama de Pedro e Inês. Por isso, o então Presidente da Câmara de Coimbra, Dr. Manuel Machado, atribuiu o seu nome a uma rua, perpetuando-a na toponímia da cidade que ela tanto amava.
Agora os dias escorrem e a mesura dos afortunados, que ousam ler esta escritora, interpelam os deuses para que lhes seja permitido espreitarem as ameias onde se ocultam as razões do cânone que condenaram Natália Correia ao degredo.(in Diário de Coimbra)
Publicado por António Vilhena às 10:48 AM | Comentários (0)
abril 13, 2009
Eros e Psiquê
Pormenor do quadro, óleo sobre tela, de Jacques-Louis David (1748-1825).
Publicado por António Vilhena às 11:00 PM | Comentários (0)
Pártenon I
A luta entre o Ocidente e o Oriente teve o seu início, provavelmente, no séc.V a.C. Em 490 a.C os Atenienses derrotam aos Persas em Maratona e dez anos depois, em 480 a.C., o rei Xerxes é esmagado em Salamina. Outras vitórias se seguiram, destacando-se a de Plateias que confirmaram a independência dos gregos (479 a.C.). Estas vitórias foram exaltadas por Heródoto no livro VII citado na Hélade, por Maria Helena da Rocha Pereira: Quem afirmar que os Atenienses foram os salvadores da Grécia não falta à verdade. Para qualquer dos dois partidos que se voltassem, se inclinaria a balança. Uma vez que escolheram que a Grécia continuasse livre, escolhendo assim, foram eles que despertaram todo o resto da Hélade, que não estava ao lado dos Medos, e eles que, depois dos deuses,repeliram o grande Rei.
O inevitável progresso e afirmação de Atenas teve as suas consequências políticas. Criou-se a Confederação de Delos, onde tinha sido construído um majestoso santuário em honra de Apolo, que pugnava pela defesa das cidades do Mar Egeu. Mas a afirmação de Atenas começa a fazer-se sentir em todas as cidades da Hélade e, consequentemente, também nas cidades do Mar Egeu e, então, o tesouro resultante da Confederação de Delos é levado para Atenas.
Péricles faz aprovar, em 443 a.C., na assembleia uma nova vaga de reconstruções dos templos destruídos pelos persas durante as guerras, sendo o fundo do tesouro de Delos utilizado para esses objectivos. Entre os templos a reconstruir constava a Acrópole de Atenas. Foram várias as reconstruções concretizadas no conjunto monumental associado à Acrópole: Propileus, Atena Nike e Erectéion.
Péricles(495-429 a.C.) que teve sempre uma grande preocupação com a formação dos cidadãos da Polis, considerava Atenas a “escola da Hélade”, concebeu um projecto que desse resposta às necessidades de formação na arte e na cultura. Mas o que ele julgava imprescindível é que naquele espaço se cultivassem os valores que estiveram presentes na luta contra os Persas, ou seja, a defesa da liberdade e dos valores da Hélade.
Ao propor-se reconstruir todos os templos e edifícios da Acrópole, Péricles concebeu um conjunto arquitectónico que devolvesse aos atenienses a dignidade de acesso à política, à religião e à cultura, sendo a deusa Atena, protectora da cidade, a divindade que zelava pela defesa a Pólis.
Publicado por António Vilhena às 03:52 PM | Comentários (0)
abril 12, 2009
Nós, Europa
É uma altura histórica para a Europa. O que ficou do Tratado de Lisboa com o alargamento a novos países, num total de vinte sete? É pertinente repensar os caminhos que os europeus trilharão para em conjunto e com culturas tão diversas arquitectarem uma união política que tenha como denominador comum elevar os valores fundadores da matriz europeia. E essa matriz é clássica, ou seja, chegaram até nós através da língua, da literatura, da arte, da filosofia, da estética, da herança cultural que a pele de gerações transmitiu às vindouras. Todos reconhecemos que na antiga Hélade germinou uma cultura que se dessiminou através de séculos, que o Império Romano integrou e difundiu essa herança chegou até aos nossos dias, nomeadamente, através do teatro clássico. E hoje falar de cultura europeia é o mesmo que falar em ideário humanista. Mas, para chegarmos até aqui foi necessário “ o âmago de uma cultura (..) as suas obras clássicas – ou seja, intemporais. São intemporais e imperecíveis porque o seu significado transcende a morte.” escreveu George Steiner. Nas palavras de Holderlin: “Was bleite abet, stiften die Ditch die Dichter.” ( “O que permanece, é fundado pelos poetas”). E com estes estão seguramente os maiores tragediógrafos: Ésquilo, Sófocles e Eurípides. A Antígona, de acordo com a Prof. Maria do Céu Fialho tem mantido , desde a Antiguidade até aos nossos dias, a força actuante de um dos mais poderosos estímulos estéticos, que sempre provoca o envolvimento da posteridade, não apenas na tarefa de apropriação hermenêutica, como também na recepção criadora (que envolve implicitamente a primeira), ambas sempre apaixonantes. Eis, talvez, a razão porque a cultura clássica terá inspirado Shelley a declarar que “somos todos gregos”.
Publicado por António Vilhena às 10:58 PM | Comentários (0)
Da Bíblia
Sabia que a Bíblia é composta por um conjunto de 175 livros, sendo 46 do Antigo Testamento ou de Escrituras Hebraicas e, apenas, 27 do Novo Testamento?
No estudo do Pe. Joaquim Carreira das Neves, Professor Jubilado da Faculadade de Teologia da UCP, com especialidade em Estudos Bíblicos e Orientais, actualmente, “muitos exegetas e historiadores de matriz cristã usam a terminologia Primeiro Testamento e Segundo Testamento porque o primeiro e o segundo, para os cristãos, não existe uma ruptura ou um muro, mas uma continuidade histórica e teológica. Há, contudo, uma diferença entre judeus, católicos romanos e protestantes quanto ao número de livros do cânone do Antigo Testamento. Para os judeus e para os protestantes, só os livros escritos em hebraico são verdadeiramente Bíblia ou Sagrada Escritura (veritas hebraica), enquanto os católicos e os ortodoxos também aceitam alguns livros escritos em grego”.
Publicado por António Vilhena às 11:49 AM | Comentários (0)
Bailarina
Há muito que o sol tinha curvado a linha do horizonte, as ruas começavam a esvaziar-se e os candeeiros da avenida acendiam-se sob a copa das árvores, enquanto os néons dos cinemas anunciavam os últimos sucessos da sétima arte. Estava-se no Inverno, os dias eram mais curtos, os cafés ficavam cheios até mais tarde e os autocarros enchiam-se de gente cansada de regresso a casa. Foi num desses regressos que ele entabulou conversa com uma menina que entrara duas paragens antes. Para ele era uma menina, apesar de aparentar vinte anos. Talvez viesse da escola de dança, pois trazia um saco transparente onde eram visíveis as botas. O que o surpreendeu foi o seu sorriso e a delicadeza de gestos. Não demorou muito até lhe dirigir as primeiras palavras. Essa bailarina trazia-lhe à memória o primeiro bailado que viu sobre o gelo, Quebra Nozes, no Coliseu, com o pai, devia ter pouco mais de um metro de altura. Era sempre assim ao sábados à tarde. Depois do espectáculo, vinha um pedido irrecusável: - Compras-me castanhas? A viagem de regresso era feita com poucas palavras, as castanhas querem-se quentes e, por isso, toda a concentração estava nesse embrulho de jornal guardado na algibeira grande do sobretudo, onde metia a mão para tirar uma a uma. Acabava o embrulho quando estava a chegar à rua do bairro onde morava, já os seus amigos estavam recolhidos e apenas o Zarolho, o cão vadio que se afeiçoou ao bairro, estava debaixo do alpendre da tabacaria do vizinho Malaquias.
Agora estava sentado ao lado de uma bailarina, sentia-se príncipe de companhia, admirava as suas mãos, os gestos de filigrana fina e o seu pescoço esguio. Um bálsamo de beleza inundava-lhe os sentidos, fazia-o sonhar, sentia-se confuso, um rio de emoções tolhia-lhe a lucidez.
- A menina costuma apanhar esta linha?
- Raramente, mas hoje vou a casa da minha avó que faz anos - respondeu com voz doce.
O autocarro vez uma curva apertada e a menina encostou-se levemente, foi então que o seu perfume quase o inebriou, sentia-se incapaz de prever as consequências de tão inesperado encontro. De repente sentiu-se adolescente, esqueceu tudo o que lhe ensinaram, diria, tudo o que ensinara na Faculdade aos seus alunos. Um misto de poeta anarquista navegava-lhe as veias, afinal, tinha idade de ser pai da sua companheira de viagem, tinha, talvez, a idade da sua filha Cristina e, isso, era o suficiente para ter dúvidas. Afinal de contas era, também, um educador, alguém de quem se espera um comportamento irrepreensível.
- A menina .... – ia perguntar apontando para o saco.
- Sim, danço. Desde os meus seis anos.
- Eu ainda tentei, mas tinha o pé pesado – tentou a graça.
A viagem aproximava-se do fim. Lá fora a noite caía e só as luzes dos automóveis permitiam ver a chuva miudinha que começava a cair. As pessoas apressavam-se protegendo-se, talvez, dos primeiros pingos. Os vidros do autocarro estavam embaciados e no banco da frente uma bebé, que seguia no colo da mãe, desenhava com os seus dedinhos uma boneca. Havia naquela viagem um misto de coincidências que faziam do dia 18 de Dezembro uma paleta de coisas belas, impossíveis de esquecer. Por instantes interrogava-se sobre o acaso, o destino, o renascimento e outras inquietações que sempre lhe alimentaram o imaginário. Agora, quase com quarenta anos desenhava os insucessos de uma vida cheia, estava só, viajava, e tinha projectos para escrever um romance. Tinha muitas histórias para contar, mas fascinava-o aquela mulher que tinha três filhos e que o marido acreditava serem seus, sem saber que era estéril. A vida tem muita ficção onde a realidade se torna incrédula.
A viagem estava quase a chegar ao fim, mas ainda ouve tempo para lhe perguntar:
- É profissional?
- Sim.
- Gostaria de ir vê-la...
- A estreia é no Teatro Cassiano.
Por instantes, parecia ter ficado cativo daquela voz límpida e serena, não fosse o autocarro ter estacado na paragem para alguns passageiros descerem, entre os quais a bebé que desenhou no vidro da janela uma espécie de boneca, de casa e de estrelas. O autocarro estava mais vazio, adivinhava-se o fim da viagem, um sentimento de tristeza percorreu-o, a chuva aumentou de intensidade e um vento forte inclinava a copa das árvores. Havia um silêncio crescente, a qualquer momento a bailarina iria com a chuva e o vento. Foi interrompido pela surpresa indesejada:
- Dá-me licença? Vou sair aqui.
Ele levantou-se, ajudou-a a pegar no saco transparente e não hesitou:
- Sou Professor de Estética. Tem aqui um cartão.
Ela olhou-o nos olhos, estendeu a mão de pele branca, agarrou o cartão e, já em andamento, deixou-lhe uma frase desconcertante:
- Até sábado.
O autocarro parou, sorriu antes de transpor o último degrau da porta, talvez um convite ou um lamento, afinal, essa viagem tinha sido diferente, alguém lhe dera atenção, os seus olhos tinham um brilho especial nesse dia cinzento. O autocarro arrancou e ele, ainda, pode vê-la desaparecer entre as árvores e as luzes das montras enfeitadas com decorações natalícias. Um mundo de espanto precipitava-se, a terra tremia. Agora ia sozinho, à sua frente seguiam três pessoas, pareciam uma família, talvez saíssem na próxima paragem. Estranhamente, não deixava de pensar naquela bailarina de quem não sabia o nome, nem nada. Apenas os traços finos, apenas um corpo elegante esculpido com esforço e suor, uma escultura humana de voz sensual e tímida. Ainda há pouco a eternidade parecia à distância de uma mão, sim, chama-se eternidade ao que permanece para além da morte dos nossos sonhos, ao que se projecta no futuro e resiste à erosão do tempo, àquilo que transfigura as emoções e, às vezes, é tão pouco o que precisamos para tocar o céu. Nunca a noite pareceu tão longa, havia uma inquietação crescente à medida que se aproximava do bairro onde outrora o Zarolho parecia esperá-lo antes de se enroscar. Finalmente, ficava sozinho, todos os outros passageiros tinha saído, faltava-lhe ainda cinco minutos de viagem. A intensidade da chuva tinha aumentado, aos poucos sentia mais frio, a solidão era um sentimento crescente desde a despedida da bailarina. De repente, a viagem chegou ao fim, parecia ter despertado de um sonho. Tinha que caminhar alguns metros até ao quarteirão, onde mora, onde sempre morou, no Bairro dos Jardins, com vistas para o rio.
Durante os dias seguintes um pensamento recorrente desassossegava-o, por isso, ia até ao rio distrair-se, esquecer os olhos verdes, as mãos delicadas, a cintura estreita, o andar volátil da princesa que lhe deixou um vaga de perfume no coração. O rio apaziguava-o mas devolvia-lhe o instinto de viagem, que o pai cultivou nas histórias que lhe lia antes de adormecer. Gostava de ficar ali na margem, a admirar os navios e as gaivotas que lhe traziam à memória a elegância dos movimentos do bailado. Tudo lhe fazia lembrar o que queria esquecer, no fundo, aquele encontro tinha-lhe alterado as rotinas.
Chegava cedo à Faculdade, lia os jornais e o correio electrónico. Tinha as manhãs livres, só dava aulas de tarde, mas gostava de estar no gabinete. Como sempre, a meio da manhã, a senhora encarregue de distribuir o correio bate à porta:
- Entre.
Algumas cartas e postais de boas festas, mas havia uma não identificada. Abriu-a sofregamente. Era um convite pessoal da bailarina para assistir à estreia do bailado “Ivan, o Terrível”, com música de Sergei Prokofiev. Saltou da cadeira, verificou que a porta estava fechada e ensaiou uma dança descalço sobre a secretária.
Publicado por António Vilhena às 12:35 AM
abril 11, 2009
Ulisses
Dizem coisas as marés aludindo a Penélope/
tudo se oculta sob a água em veios e vagas/
que vão e vêm e nada consentem./
Já não ouso contra Posidon, a tormenta/
tem outros nomes bem mais íntimos/
que sulcam os silêncios da ilha./
Ir embora sem ter de partir, é levar a vida/
dentro de outra vida que já não é,/
fingir a Circe e morrer mais longe./
Do tempo que gastou as feições,/
fica o mar, o sonho que prolonga a praia,/
e a paciência do amor que não desespera./
Publicado por António Vilhena às 04:10 PM
Vozes da Lonjura
Regressar ao Alentejo nesta quadra pascal é mergulhar numa paleta de cores espalhadas pela lonjura. Lá estão o verde, o castanho, o amarelo torrado e, como abóbada deste mosteiro de silêncios, o azul salpicado de branco. Tudo à distância de uma mão e de um rio de emoções que desagua na ondulação das searas imberbes.
Ouvem-se o grilos, os seus cantos desafiam os coros que salpicam as ruas de aldeias e vilas, são as vozes da lonjura ancoradas na ternura da tarde, são os homens de braços fortes soletrando na vida a partilha do tempo, antes que a noite derrame um choveiro de estrelas.
Há muito que a constelação de vozes “levantadas do chão” amolece as vidas destas gentes, os seus cantos trazem os cheiros da terra e da saudade, misturam o pão e a meninice numa melopeia telúrica. São as identidades com olhos vindouros. Do itinerário das tascas, das adegas, dos cafés fica um mapa de sons únicos, arrancados ao improviso, ao despique, num misto de memória onde se adoçam os caminhos cruzados deste povo do sul.
Nos seus rostos não há lugar para ironias, a planície inteira está na sua pele queimada como uma tatuagem da terra. Quando a noite chega, os círios sinalizam os percursos da intimidade onde a solidão parece ganhar vida própria, são as trevas dos que ficam para ter companhia. Nunca um alentejano cantou sozinho, a sua voz só ecoa solidária e só atravessa a lonjura se Orpheu e Eurídice esculpirem um tambor de paixões.
Publicado por António Vilhena às 12:21 PM
abril 10, 2009
Alentejo
O Alentejo é um papiro de silêncios onde o mar se abeira a ocidente. A memória da paisagem é mais que a cinza dos mortos espalhada pelo vento suão, onde o estio derrama as sombras. Ali, as gentes rasgadas de rugas têm o sol nas vidas e o canto esculpido nas veias para perpetuar as rimas ancestrais. A lonjura é a metáfora da eternidade, passo a passo, a caminhada sem fadiga, a esperança que chega com a Primavera. Há em cada alentejano uma Tróia incendiada, um exílio de amor secretamente renovado. Fica sempre uma papoila no olhar, uma inefável emoção, quando sentimos que os nossos braços são pequenos para tanto Alentejo.
Publicado por António Vilhena às 05:15 PM | Comentários (1)
A INTERRUPÇÃO INVOLUNTÁRIA DA BIBLIOTECA
A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra tem nesta quadra pascal um horário pecaminoso, fecha às 12:30, reabre às 14:00 e volta a fechar às 17:30. É aquilo que se chama uma interrupção involuntária do saber, da investigação, do bom-senso. Como investigador sinto na pele este horário. Dizem que há falta de recursos humanos e que a Reitoria conhece a situação, mas continua insensível aos apelos dos responsáveis da biblioteca.
A Universidade de Coimbra, com mais de 700 anos e pergaminhos, não pode meter a cabeça na areia, ignorar os danos causados a todos os que procuram esta babel de livros. Fechar a biblioteca é equivalente a fechar as urgências dos hospitais. Impensável, inadmissível.
Publicado por António Vilhena às 11:01 AM | Comentários (3)
abril 09, 2009
Os Mal-Amados
Publicado por António Vilhena às 05:55 PM
abril 08, 2009
O Nascimento das Fúrias
“Uns dizem que primeiro eram as Trevas e que destas brotou o Caos. Da união das Trevas com o Caos, surgiram a Noite, o Dia, Érebo e o Ar. A Noite uniu-se a Érebo e essa união ocasionou o Destino, a Velhice, a Morte e o Homicídio, a Continência, o Sono e os Sonhos, a Discórdia, o Sofrimento, a Tirania, Némisis, a Alegria e a Amizade, a Compaixão, as Três Parcas e as Três Hespérides. Unindo-se o Ar à Mãe Terra, ambos geram o Temor, a Perícia, a Ira e a Contenda, as Mentiras e as Imprecações, a Vingança, a Intemperança, a Altercação e o Pacto, o Esquecimento, o Medo, o Orgulho e o Combate; surgiram também Oceano, Métis e os restantes Titãs, surgiu o Tártaro, e as três Erínias, ou Fúrias”. Robert Graves, in Os Mitos Gregos.Publicado por António Vilhena às 08:22 PM | Comentários (0)
O Remorso de Orestes
(1862) por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).
O remorso de Orestes (1862) por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).
Publicado por António Vilhena às 04:18 PM