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maio 29, 2009

Esquecer um aniversário.

Quando nos esquecemos do aniversário de alguém, que seria suposto não esquecer, o embaraço chega a ter outro nome: vergonha. Esta situação, mais frequente do que se pensa, não deve ser valorizada, principalmente, se é episódica. Ainda assim, há algumas dicas, desculpas, que podem ser ensaiadas. Pode-se sempre dizer que o despertador do telemóvel não tocou, que pensava que era no mês seguinte, embora no mesmo dia, que tinha pensado telefonar mais tarde, no final do dia, que estava a aguardar para ser diferente, que estava à espera que o estafeta fizesse a entrega da surpresa, que ficou sem saldo no telemóvel, que.....que....., enfim! Há tantas escapadelas, mas o melhor é assumir que se esqueceu, pedir descupla e, ainda, enviar os parabéns. Esta é a minha opção quando me acontece. A verdade é, às vezes, um mal menor que permite dormir descansado.

Publicado por António Vilhena às 01:05 AM | Comentários (2)

maio 28, 2009

Um véu de anjo no cerejal

Os símbolos dos lugares são as pedras, aquelas que têm as formas que as mãos esculpiram, e as que se hão-de esculpir, se Hélios desocultar a arte que as trevas encobrem. Nas viagens que em silêncio iniciamos, perduram as marcas da intemporalidade com que se sinalizam as paisagens que queremos lembrar. Quase sempre é no fim que recuperamos os pormenores, que exercitamos as linhas e as sombras para melhor definirmos a geometria dos afectos. Depois, fica um risco na noite, um poema na cal, uma lamparina mortiça, um véu de anjo no cerejal.

Publicado por António Vilhena às 10:16 PM | Comentários (2)

maio 27, 2009

A Lua não bronzeia

Quando nos propomos atingir um objectivo material ou imaterial as nossas forças devem concentrar-se nesse alvo, mobilizar-nos para excedermos os limites das nossas capacidades, convocar as utopias para aproximar o sonho desse "paraíso", onde desconfiamos que habita um pouco da nossa felicidade. Por isso, “a vida é de quem a conquista e não de quem a sonha conquistar, ainda que tenha razão”, de acordo com Fernando Pessoa. Todos conhecemos pessoas com imensas capacidades que adiam sistematicamente a realização de projectos e, ao fim de algum tempo, lamentam-se que não fizeram nada do que tinham pensado. O resultado destas pessoas é igual ao daquelas que não têm objectivos, que não querem saber de nada, que não têm interesse em mudar de vida, em que o próprio ar, que respiram, as aborrece. Ou seja, estamos a falar do mesmo resultado de pessoas, que por razões diferentes têm o mesmo desempenho. As primeiras têm interesse, mas nunca se motivam o suficiente, as segundas não têm interesse nem motivação. A procrastinação não é a única análise possível nestas circunstâncias. Usaria a imagem de alguém que vai à praia para se bronzear, mas não consegue. De facto, ela vai à praia, mas de noite, e a lua não bronzeia.

Publicado por António Vilhena às 01:16 PM | Comentários (3)

maio 26, 2009

Tâmara de paciência

A papoila estava só, parecia perdida, encostada à pedra onde o pastor diariamente se sentava. As suas ovelhas pastavam na encosta entre duas azinheiras seculares, que espalhavam as suas sombras, quiçá, como as mãos de Diana. Ao fundo, dois cães respondiam aos assobios do homem que conhecia todos os milímetros de terra como as suas mãos. Tio Jaquim aprendeu a arte da pastorícia quando tinha idade de ir à escola. O destino trocou-lhe as voltas, começou por tomar conta do farnel, depois foi promovido, ocupou-se de uma cadelinha com dias e, rapidamente, progrediu na hierarquia da sobrevivência. A sua vida foi uma biblioteca de céu aberto. Sabe tudo sobre as estrelas, o ciclo das estações, o nome da ervas e da passarada. Aprendeu até o ofício da maternidade. Todas as suas ovelhas sabem que as suas mãos são pinças de deus. No Alentejo, os pastores rimam as noites com os sons das corujas, o canto das cigarras e a grande lua, grávida de desejos. É uma espécie de cumplicidade que incendeia os sentidos e mistura a terra e a pele numa tâmara de paciência.

Publicado por António Vilhena às 09:21 PM | Comentários (2)

maio 25, 2009

As nuvens têm escada.

As nuvens chegam nos sonhos, vêm no algodão e trazem a leveza das mãos com que me acordas. A tua pele é seda oriental, a tua voz um pergaminho e, se as tardes demoram, o canto das aves espreita no decote dos teus seios onde os laranjais espalham as sombras.

Publicado por António Vilhena às 08:19 PM | Comentários (1)

007 : 700

A crise espalha a sua tentacular sombra sobre os portugueses. Por cada dia útil, 700 novas pessoas engrossam as estatísticas do desemprego, famílias inteiras ficam amputadas do que de mais digno existe, o direito ao emprego. A consequência é trágica e alguns políticos parecem não querer assumir as suas responsabilidades. A relação entre desemprego e radicalismo é ténue, a fronteira é um pulinho e estimula os discursos mais extremistas. O que fazer com estas pessoas que regressam ao silêncio das suas casas – essas próprias hipotecadas à banca -, que vivem sob ameaça do homem do fraque por razões alheias à sua vontade? Deviam ser equacionadas medidas de apoio psicológico às famílias mais atingidas pelo desemprego, uma espécie de terapia familiar. Numa situação de quebra de rotinas é urgente que se avaliem as competências dos desempregados e se encontrem estratégias diferenciadoras que enquandrem os recursos das famílias.

Publicado por António Vilhena às 12:28 PM | Comentários (1)

maio 22, 2009

Gonçalo Cruz, príncipe eterno!

Se um acidente estúpido não o tivesse arrancado ao convívio daqueles que mais o admiravam e amavam, Gonçalo faria hoje 24 anos. Era uma artista, um criativo, uma alma volátil que respirava a arquitectura dos lugares e a sede das viagens, pretexto para encontrar a música do universo. Perder um filho é sempre uma tragédia, mas esta assume dimensões inigualáveis quando o génio se precipita no silêncio eterno. Apetece repetir o que Marshall Berman escreveu na introdução do seu livro Tudo o Que é Sólido se Dissolve no Ar, a propósito da morte do seu pequeno filho: quando uma criança morre apetece devolver o nosso bilhete de entrada neste mundo. As alegrias dos meus amigos sinto-as na pele, mas as dores atravessam as montanhas que guardamos dentro de nós.

Publicado por António Vilhena às 08:03 PM | Comentários (0)

Auto(down)europa

A fábrica Autoeuropa voltou à ribalta pela porta da ansiedade. A administração mantém o silêncio sobre o futuro da fábrica, reduziu para um turno a sua laboração, anunciou o fim dos contratos a prazo e não existem projectos para a produção de novos carros. As nuvens cinzentas pairam sobre o manto da crise já existente. A ameaça de deslocalização da fábrica é uma possibilidade real. O Ministro Manuel Pinho a única coisa que tem para dizer é pedir mais exigência aos trabalhadores. Quando se começa a falar muito da possibilidade de encerramento, principalmente nesta conjuntura em que existe uma atmosfera psicológica propícia a todo o tipo de desaforros patronais, o encerramento da Autoeuropa não é uma miragem. Se fechar o espectro de uma catástrofe social em Palmela contagia o país. A opinião pública está lentamente a ser sensibilizada, embora Andreas Hinrichs, director geral, tenha vindo dizer que as negociações com os trabalhadores vão ser retomadas na próxima semana. Trata-se de um paliativo para ganhar tempo. Veremos se Manuel Pinho tinha razão.

Publicado por António Vilhena às 07:00 PM | Comentários (0)

maio 21, 2009

Teresa Alegre bate com a porta.

Teresa Alegre, deputada e anterior vereadora da Câmara Municipal de Coimbra, bateu com a porta, demitiu-se do Conselho Geral do Instituto Politécnico de Coimbra, depois do que se passou recentemente(ver post anterior). A sua demissão pode ser apenas o princípio de outras. As figuras de prestígio e responsáveis não quererão ver o seu nome envolvido numa guerra de poder, com o presidente do Conselho Geral, Viana Ramos, a recorrer a todos os expedientes ilegais para marcar a agenda dos seus candidatos. Uma vergonha! O Ministro Mariano Gago devia considerar a possibilidade de rever a legislação, introduzindo uma emenda, impedindo que Jubilados da instituição de ensino superior possam exercer essas funções. As figuras de prestígio não têm paciência para afagar o ego de figurinhas que gostam de brincar no Portugal dos Pequeninos.

Publicado por António Vilhena às 02:17 PM | Comentários (0)

Pão e Circo no Instituto Politécnico de Coimbra

Há uma tendência masoquista dos portugueses para a flagelação e para incendiarem a casa. Depois, ficam a ver o que acontece ao vizinho, desejando que lhe aconteça o mesmo, para não se sentirem sozinhos na desgraça. A isto chamam “mundo de loucos”, “irresponsáveis”, “saco de víboras”, “vingadores de promessas”, “alcateia de peso leve”, “miseráveis de espírito” ou, ainda, “jubilados à força em busca do poder perdido”. Todos já vimos filmes de personagens vestidas de capuchinho vermelho, mas onde são incapazes de disfarçar a voz de predadores. Na primeira oportunidade mostram os dentes, chamam os algozes, cercam a presa e, com sentido de oportunidade, mostram a garganta funda. São os especialistas da ansiedade, tentam aterrorizar a presa, desvalorizam os outros e o seu umbigo é maior do que o sentido da responsabilidade. Às vezes, tomam decisões sozinhos, esquecem, ou não consideram importante, ouvir a família, tudo em nome de uma miopia de poder que transforma a lucidez numa cegueira branca. E, atrás da moita, escondem-se, normalmente, outros predadores, que pensam ter ainda muito para conquistar, por isso, mostram-se pouco, simulam solidariedades, telefonam a uns e a outros, a todos dizem que estão com eles, que sempre estiveram desse lado, que podem contar com o seu apoio, etc, etc... São os vendilhões do templo, crentes de todos os credos, rezam à esquerda e à direita, negoceiam pratos de lentilhas, para eles e para os seus, vendem a alma ao diabo. Estas sombras passeiam-se no palco onde desaguam os esgotos, apeadeiro de ratos que conhecem as galerias do submundo- não confundir com Campos Elísios. A degradação humana acompanha a insanidade ética que, geralmente, tem muito de presunção e pouco de água benta. O verniz nestas personagens tem pouco brilho, ainda que o fato do capuchinho vermelho esteja passado a ferro e, no limite, traga um certo cheirinho a naftalina, sinónimo de pouco uso e, talvez, pouca competência social. O “Complexo do Alfaiate do Filho” pode ser interpretado como o inverso daquilo que aconteceu com o “Complexo de Édipo”, ou seja, o pai morre de inveja dos fatos que o filho usa e, por isso, a sua raiva é canalizada para o alfaiate, mas na primeira oportunidade tenta apropriar-se das vestes para se fazer passar por aquele que gerou. Normalmente, a cópia é sempre pior do que o original. No Instituto Politécnico de Coimbra assistiu-se recentemente ao pior filme dos últimos tempos, ao pior guião e ao pior realizador. Uma instituição de ensino superior público que conquistou nos últimos anos uma posição de grande notoriedade e credibilidade - devido ao trabalho da equipa que acompanha o Doutor Torres Farinha-, vê, num ápice, a sua imagem positiva, no país e no estrangeiro, atingida pelos tomates lançados pelas sombras, ou talvez não, que atrás da moita se entretêm a manipular Bonecos de Santo Aleixo. A instabilidade voltou ao IPC, coincidência ou não, com o regresso do anterior Presidente, o jubilado Doutor Viana Ramos, que agora preside ao Conselho Geral, órgão que devia pugnar pela paz e consensualizar as diferentes sensibilidades. Aliás, permitam que recorde o que diz o despacho normativo n.º 59-A/2008, no artigo 13º, nº2, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior: “o presidente do conselho geral não interfere no exercício das competências dos demais órgãos da instituição, não lhe cabendo representá -la nem pronunciar-se em seu nome”. Cumpra-se a legalidade! Haja eleições! O tempo irá esclarecer se esta curta metragem de péssima qualidade, onde se discute pão e circo na praça pública, foi uma obra de engenharia mal calculada.
(in Diário de Coimbra.
Nota: Na 1ª foto, Torres Farinha, na 2ª foto Viana Ramos)

Publicado por António Vilhena às 11:05 AM | Comentários (5)

maio 20, 2009

Romã, fruto de Afrodite


A romã é um fruto sensual, a sua história aparece associada às culturas antigas, à Grécia, a Roma, ao Egipto e à Ásia Menor. Com propriedades químicas medicinais, ao longo dos tempos foi sendo objecto de culto e a sua importância emerge associada a diferentes rituais. A romãzeira fora consagrada a Afrodite. A romã aparecia, assim, como símbolo do amor e da fecundidade. Se observarmos uma romã, facilmente nos deixamos surpreender pela capacidade enleante das suas sementes, pela sua estrutura agregada e compacta, pela transparência translúcida da sua polpa. A romã é um símbolo religioso e maçónico.Os judeus costumam atribuir-lhe grande significado, aparece ligada aos rituais de ano novo. Para os maçons elas aparecem à entrada dos templos sobre as colunas J e B.

Publicado por António Vilhena às 12:48 PM | Comentários (1)

maio 19, 2009

As duas rosas

As duas rosas que cresceram no quintal, uma vermelha e outra vermelha misturada de arco-íris, quando eu era adolescente, ainda decoram o lajedo onde me espreguiço sobre a paisagem. Com a vermelha falo de tango, de Buenos Aires, de sensualidade; com a outra, descubro a multidão que oculta a diferença das rosas que só querem ser de uma cor. Quando estou entre as duas, as palavras chegam siamesas à voz, mas a luz não mistura as pétalas.

Publicado por António Vilhena às 10:00 PM | Comentários (1)

As camas dos hotéis

O mundo dos hotéis é fascinante, traz uma áurea de mistério e de descoberta que me consome os sentidos. Os grandes hotéis são espaços de cultura, de encontro, de sedução, de cumplicidade. De comparável só os aeroportos ou a 5ª Avenida. A história da literatura está recheada de exemplos de escritores que encontraram nos hotéis a sua babel criativa. Mas o que sempre me fascinou, nestes recantos do mundo, foram as camas. Estão sempre bem feitas, sempre com os lençóis esticados. E os colchões parecem tapetes destinados aos deuses.

Publicado por António Vilhena às 11:25 AM | Comentários (0)

maio 18, 2009

A língua da abelha.

A abelha é dona de uma grande língua. Sabia? Na figura corresponde ao nº1. A língua move-se num canal formado pelas maxilas e os palpos labiais, terminando num tufo de pêlos que, como uma esponja, absorve o nectar da flor.

Publicado por António Vilhena às 11:59 AM | Comentários (1)

maio 17, 2009

Neve, neve...

A carta não chegou. Naquele dia muitas palavras não chegaram ao seu destino. A manhã parecia normal, o sol apareceu tímido, mas a brisa suave dos dias anteriores deu lugar a um vento forte, talvez, vindo do vale para levar tudo à sua passagem; adivinhava-se o pior. A rádio divulgava conselhos úteis e apelos constantes para a população permanecer em casa. Da janela do quarto viam-se árvores curvadas, como se fossem de brincadeira. As escolas encerraram, o comércio fechou as portas e os hospitais prepararam-se para a calamidade. Todas as sirenes foram ensaiadas e os sinos das igrejas ressoaram para alertar os sem-abrigo. Na cidade havia muitos homens e mulheres que erravam como turistas cativos no seu labirinto. O menino Zé, que tinha ficado em casa, espreitava da janela do quarto o efeito do vento forte: os caixotes de lixo tombados, os ramos de árvores partidos, os carros da polícia com microfones aconselhando a população, os cães a protegerem-se junto das paredes e, principalmente, um céu cada vez mais cinzento. A família estava toda reunida, o pai, que trabalhava como camionista, decidiu, na véspera, adiar a viagem para Paris. Todos estavam em alerta para o temporal que se aproximava. À medida que o tempo ia passando os níveis de ansiedade cresciam, o medo era um sentimento partilhado em silêncio de que ninguém queria falar. Apesar de tudo, o pai desdramatizava e exibia um sorriso contagiante. A esperança sempre foi um slogan familiar. E quando todos aguardam junto à lareira, o Zé, menino curioso, foi espreitar à janela do quarto. Viu que começou a nevar, caíam grandes flocos de neve que rapidamente cobriram a rua e o seu quintal. Em gritos estridentes, irrompeu pela sala, onde estava a família, e com grande alvoroço começou a gritar: neve, neve, neve... Todos correram para o quintal, incrédulos, pois nunca tinha nevado naquela cidade, parecia uma fantasia. Rapidamente a rua se encheu de crianças, que com os seu pais construíam bonecos, casinhas e outras réplicas de objectos. O Zé começou a construir um autocarro gigante, semelhante ao que todos os dias o leva à escola, no outro lado da cidade. O pai foi buscar um grande pá para poder arrastar a neve da porta de entrada. Durante longas horas a neve caiu e o medo de uma catástrofe deu lugar à festa.

Publicado por António Vilhena às 03:26 PM | Comentários (1)

maio 15, 2009

Bissaya Barreto e o tríplice abraço a Fernando Vale

A Fundação Bissaya Barreto comemorou os cinquenta anos da sua fundação, 26 de Novembro de 1958. As comemorações foram muitas e fixaram-se sobre quatro eixos: Cidadania, Marcos, Conhecimento e Vivências. Mas o legado mais significativo de Bissaya Barreto não são as casas, os móveis e as obras de arte mas, sim, o seu património imaterial, os seus princípios de solidariedade e de fraternidade que defendeu e praticou ao longo de toda a sua vida. O tempo, “esse grande escultor”, de que falava Yourcenar, ajuda a dissipar a poeira que alguns espíritos apoucados lançaram sobre o Homem que ousou defender “as crianças da nossa terra”. A inveja queima as mãos e não liberta a consciência, por isso, gostaria de trazer a público um acontecimento que ajuda a conhecer o carácter singular do homem que não se cansava de procurar a beleza. Em 1950, Arganil tinha-se engalanado para a inauguração da Casa da Criança, a que deu o nome de sua mãe, Joaquina Barreto Rosa. Na comitiva oficial que percorria as ruas da vila seguiam o Ministro da tutela, o Presidente da Câmara e Bissaya Barreto, entre outras personalidades. Atrás da multidão que se abeirava na estrada estava um médico da terra, encostado à ombreira da porta da Farmácia Galvão – ainda existente -, que tinha sido demitido das suas funções de médico municipal dois dias antes. O “crime” desse insigne cidadão foi o de ter participado num comício de apoio a Norton de Matos que organizou, em 1949, aquando das eleições presidenciais. Bissaya ao vê-lo afasta-se da comitiva e vai dar-lhe três abraços calorosos, talvez de Revolta pela injustiça; depois integra-se na comitiva, perante o espanto e a admiração de quem presenciou tão "inusitada ousadia". O médico chamava-se Fernando Vale, e tal como Bissaya Barreto, era maçon, ambos iniciados na Loja "A Revolta",em Coimbra, que comemora, em 2009, cem anos de actividade sem interrupção. O tríplice abraço é uma saudação maçónica usual entre Irmãos da Ordem. Este acontecimento era muitas vezes recordado por Fernando Vale para exaltar a figura de Bissaya como um homem de grande dimensão ética e humana.

Publicado por António Vilhena às 08:11 PM | Comentários (0)

A liberdade de António Gedeão

António Gedeão nessa longa conversa, de 31 de Julho de 1987, confessava-se decepcionado com o rumo da Revolução dos Cravos, a sua deriva e a confusão sobre os direitos e os deveres dos cidadãos. Contava-me que um dia seguia no eléctrico, como fazia todos os dias e, numa paragem, entrou uma senhora grávida, com muitas dificuldades. Como não havia lugares, intuitivamente, todos os que seguiam naquele eléctrico olharam para uma menina adolescente sugerindo-lhe que cedesse o seu lugar. A menina abriu a carteira, e com voz firme disse “eu também comprei bilhete”. O Poeta foi perentório: “Isto não é a liberdade”.

Publicado por António Vilhena às 01:47 PM | Comentários (1)

maio 14, 2009

António Gedeão e a entrevista não publicada.

António Gedeão (1906-1997) concedeu-me uma entrevista a 31 de Julho de 1987, quando eu era estudante na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Nesse tempo não havia telemóveis nem comboios rápidos. Parti de Coimbra para Lisboa num comboio que chegaria, de acordo com o horário, muito a tempo de estar a horas na casa do Poeta, em Campo de Ourique. Azar dos azares, a linha do norte, sentido Porto-Lisboa, estava interrompida e cheguei à capital com duas horas de atraso e a casa do Poeta três depois da hora combinada para a conversa. Finalmente, cheguei, apresentei-lhe as razões do atraso e as desculpas e começámos a conversa. Recordo que estava um dia de muito calor e, talvez, por isso, aguardava-me uma limonada, num jarro volumoso, que nos refrescou ao longo de mais de três horas. Dessa longa entrevista, nunca publicada no boletim da Faculdade, recordo-me duma passagem sobre o poema “Pedra Filosofal” que tinha sido escrito em Coimbra, entre a sua casa e o Liceu José Falcão onde leccionava. No percurso dessas viagens ía construindo o poema, dia após dia. Em Coimbra nasceu, também, o seu pseudónimo António Gedeão. Contou-me que foi às pautas e encontrou Gedeão, nome de um seu aluno, depois precisava do primeiro. Lembrou-se de António, nome bem português, “até Salazar quis ser António”, dizia-me. Além disso, “António quer dizer homem bom” – acrescentava. E, assim, nasceu o nome do Poeta da “Pedra Filosofal”. A propósito deste poema contou-me, ainda, que um dia estava em casa e toca o telefone, daqueles grandes e pesados e com fios – uma relíquia dos século passado. Era a voz de um jovem muito intimidado que pergunta pelo António Gedeão. Ele diz-lhe que é o próprio. E o telefonema continua com o jovem a pedir-lhe autorização para musicar um poema seu. Ao que o Poeta lhe dá imediata autorização pelo seu gesto, pois nunca ninguém o fazia, e dava exemplos de apropriações indevidas (evito citar os nomes dos visados). O jovem insiste em cantar-lhe ao telefone o poema musicado. Ele ouviu e, no final, disse-lhe: “Essa é, exactamente, a música que eu ouvia na minha cabeça quando construí o poema”. E o poema em causa era a “Pedra Filosofal” e o jovem, que o musicou e cantou como hoje o conhecemos, era Manuel Freire.
ver em: http://www.youtube.com/watch?v=iqUI5NyDJmQ

Publicado por António Vilhena às 05:01 PM | Comentários (5)

Os filhos dos outros

A notícia corre o mundo como se a realidade surpreendesse a ficção das telenovelas venezuelanas. Um casal alemão, que queria muito ter filhos e não conseguia, contratou os serviços de um vizinho para consumar a procriação, tendo-lhe pago uma quantia considerável. Perante o insucesso, passados alguns meses, o casal rescindiu o acordo e exigiu a devolução do valor recebido antecipadamente. O vizinho contratado era casado e tinha filhos. Investigado o mistério, constatou-se que o "prestador de serviços" nunca poderia ter tido filhos. Consequência, os “seus” filhos não o eram de facto.

Publicado por António Vilhena às 11:23 AM | Comentários (7)

maio 13, 2009

As cuequinhas que faziam comichão nos olhos do professor.

Na vida há sempre quem se preocupe connosco, onde quer que estejamos. Foi o que aconteceu na Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos José Maria dos Santos, no Pinhal Novo. Imagine que uma aluna decidiu seduzir o seu colega com as belezas naturais, preparou os seus argumentos e escolheu uma roupa apropriada: saia curta, pernas sem celulite, claro, e um decote insinuador. Esperava que o rapaz que andava detraído, de repente descobrisse que ela, a colega, era interessante. Como é que ele ainda não tinha reparado!? A partir daquele dia, tudo seria diferente. Andaria mais atento, faria uma aproximação, interessar-se-ia pelos seus apontamentos, perguntar-lhe-ia se queria ir ao cinema, se ...se...desde que a conquistasse. E eis que um professor sensível e dotado de uma visão própria de caçadores nocturnos, descobre umas cuequinhas, por coincidência, dessa menina sedutora. O dito professor, guardião dos bons costumes, ofendido nos seus sentidos, principalmente, na visão, corre para o Conselho Executivo a declarar que, na sua sala de aula, há umas cuequinhas perturbadoras que não o deixam exercer as suas funções com profissionalismo. Pasme-se a humanidade!!! A Presidente do Conselho Executivo somou dois e dois e a matemática não falha, lembrou-se dos boxers de um aluno que tinham sido observados pelos espíritos sensíveis da escola e decretou que era necessário apresentar “um aspecto asseado e limpo, vestindo-se de forma adequada ao espaço da sala de aula”, extensível a toda a comunidade escolar. Nem mais! Perante tanto zelo, podemos ficar tranquilos sobre os bons costumes. Agora, falta saber se os alunos também se sentem incomodados com o pirosismo com que alguns professores se apresentam na sala de aula. A sua falta de beleza, a ausência de pedagogia e, de outros desadequados adereços, talvez sejam suficientes para sugerirem uma adendazinha ao regulamento da escola. Haja pudor e vergonha! Por mim disponibilizo 10% do meu vencimento para ajudar à compra de uns óculos escuros para o tal professor, que "não gosta" de ver cuequinhas.

Publicado por António Vilhena às 01:00 PM | Comentários (7)

"A vida é lenta quando a morte tem pressa"

João morreu há um ano de cancro na próstata. Era um avô babado, tivera consciência dos seus últimos dias, por isso, não se cansava de fazer pedidos para os netos. Para cuidarem deles, para lhes darem muito carinho, para os fazerem felizes. O que pensará um homem que tem a percepção de que os dias se descontam à vida? Como escreveu Miguel Torga, no seu último Diário, “a vida é lenta quando a morte tem pressa”. O seu legado é, fundamentalmente, afectivo. Para lá da sua ausência ergue-se uma cordilheira de gestos perenes que a sua vida preencheu. Do lado de cá ficaram as flores, o Alexandre, a Beatriz e o António. Estas são as sementes que nidificarão a saudade.

Publicado por António Vilhena às 11:29 AM | Comentários (3)

maio 12, 2009

Manuel Alegre

Um Poeta não tem idade, é feito das palavras que atravessam o tempo dos afectos, onde escorrem os rios que outrora se aninharam nos vales e montanhas, sobrevivendo à erosão e à finitude. Manuel Alegre comemora mais um aniversário. Mas, os poetas raramente se identificam com estas efemérides, como saltimbancos escalam a inquietação destes momentos e exilam-se no dorso de um verso açoitando o vento numa quadriga. Cada dia na vida de um poeta é uma eternidade para a literatura; um dia na vida de Manuel Alegre é um manifesto de liberdade vogando no imaginário, em todas as direcções do livre pensamento.

Publicado por António Vilhena às 01:21 PM | Comentários (3)

Maria

Maria andava inquietada, os dias pareciam nascer ao contrário, de cabeça para baixo, sem luz, sem alegria, sem esperança. Andava assim há uns meses, desde que o Ricardo foi para o Afeganistão. Dorme com o telemóvel debaixo da almofada e agarrada ao filho. Ao mais pequeno ruído ergue-se num ápice, tem maus agoiros. A guerra passou a ser a sua fada má, nunca se encontraram, mas pressente que deve ser sinistra. Quando a manhã chega, não sabe se dorme ou se a noite se esqueceu de acordar. Há um misto de alívio quando o Miguel, de oito anos, lhe dirige a primeira palavra, é uma espécie de regresso à vida, um reencontro com a rotina, um beliscão da realidade para lhe despertar os sentidos. Depois são as tarefas mundanas: vesti-lo, levá-lo à escola e chegar ao emprego. Às vezes, quando tem um tempinho, vai à igreja pedir ao seu santinho protecção para o Ricardo. O que fica depois de tanta insegurança?

Publicado por António Vilhena às 10:59 AM | Comentários (1)

maio 11, 2009

A greve do coveiro

Da tarde fica a intempestiva zanga entre dois homens à esquina do café, os palavrões, as ameaças, o aparato de uma plateia impávida, incapaz de um gesto apaziguador. O que me preocupa é a naturalidade com que se aceita e convive com as situações de violência física e psicológica e a incapacidade para reagir nestas situações. O que me comove é os pais pararem com os filhos e oferecerem-lhes estes espectáculos degradantes, como se a violência fosse tão natural como a sua respiração. O que me “revolta” é ver os polícias no passeio em frente continuarem a sua ronda rumo a um objectivo virtual, alheados de uma luta entre dois homens que se agridem na via pública. A degaradação das emoções está a empurrar o ser humano para uma morgue onde os vivos se empurram, para ocuparem o seu lugar, não vá o coveiro fazer greve no dia do seu funeral.

Publicado por António Vilhena às 07:30 PM | Comentários (0)

Bela Vista

O bairro da Bela Vista tem ocupado os alinhamentos da comunicação social. Alguns políticos têm tentado tirar conclusões apressadas sobre estes incidentes, esquecendo-se, muitos deles, que no passado recente tiveram responsabilidades políticas, e nada fizeram pela integração desses pobres que vivem na periferia das grandes cidades. Aqueles que parecem provocar desacatos e gerar a violência são jovens, alguns já nascidos em Portugal. São os filhos do “deus menor”, vítimas da miséria, de famílias disfuncionais, da ilusão da vida fácil, do dinheiro barato, da droga, da prostituição, etc. Mas as origens sociais destes jovens não podem servir para passar uma esponja sobre os seus comportamentos. A maioria dos portugueses é pobre, vive abaixo do limiar de sobrevivência, vive em habitações desconfortáveis, não passa férias, não tema acesso aos bens mínimos de bem-estar. Imaginemos que todos os que estão nesta situação decidiam pôr em causa a ordem pública? O Estado de Direito é o garante da segurança, da justiça e da liberdade dos cidadãos. Por isso, não se pode pactuar com estes actos de violência e de impunidade organizada sob pena de a autoridade do Estado sair fragilizada. Não há cidadãos de primeira, mas os “filhos do deus menor” também têm que fazer alguma coisa por si, têm que mostrar que querem ser portugueses de pleno direito, que querem ir à escola, que querem ser responsáveis, que querem merecer a confiança daqueles que os receberam. O bairro da Bela Vista tem pessoas que trabalham, tem famílias estruturadas, jovens que vão à escola, pessoas responsáveis que todos os dias dão o corpo à luta por uma vida melhor. É justo reconhecer que não se pode confundir a árvore com a floresta. Nestas alturas é fácil radicalizar os descursos mas é dogmático e insensato.

Publicado por António Vilhena às 10:19 AM | Comentários (0)

maio 08, 2009

As palavras

As palavras que, às vezes, percorrem as veias são uma espécie de girinos em fuga, escavando entradas de luz, na ânsia de encontarem uma escapadela. Todos temos palavras que nos alimentam a vida, que usamos compulsivamente para perpetuarmos as nossas crenças e apaziguarmos as ansiedades. Há uma espécie de galáxia onde cintilam as preferências dos escritores, recorrendo a elas sem pudor ou receio de falta de imaginação. Elas elevam-se à condição da intimidade como um recurso cúmplice das emoções, espaço possível de reencontros e memórias, capazes de erguer o arco tenso da vivência do criador. É possível sinalizar as palavras que encheram as vidas e, como uma linha descontínua, imaginarmos o que fica para lá desses pontos luminosos que venceram as trevas e se impuseram à indiferença interpretativa.

Publicado por António Vilhena às 08:30 PM | Comentários (1)

maio 07, 2009

Mãe, quando é o teu dia?




Dizem que 3 de Maio é o “Dia da Mãe” mas, para mim, todos os dias são teus, todos os dias atravessas as minhas veias, adormeces comigo e despertas-me com a ternura invulgar com que sempre me protegeste. Quando dizem que “este é teu dia”, estranho! Soa-me a qualquer coisa que não é verdadeira, qualquer coisa importada para estimular o negócio. Seja como for, acabo por anuir, vou na onda, mesmo tendo consciência do que se trata. Agora, quero dizer-te baixinho algumas coisas, junto do teu ouvido, aquele que eu sempre preferi para te pedir cumplicidade nos momentos de aflição. A tua serenidade e disponibilidade fizeram de mim um ser estranhamente tolerante neste mundo agressivo. A tua voz foi sempre uma planície de paciência, um veio de água que trazia a novidade e a esperança, um sopro onde refrescava os meus pensamentos. Sempre cuidaste de mim como se eu fosse morrer no dia seguinte. Todos os dias regresso à tua ternura como um cais único onde me reencontro. Não é possível outra metáfora de tempo que não seja a eternidade de um instante, onde se fundem todas as emoções que soltam as memórias do que vivemos juntos. Para lá do que esquecemos, fica esse abraço fetal com que me envolveste para me trazeres a este lugar de homens, onde graça o horror da guerra mas, também, a beleza. Imagino o que sentiste e pensaste enquanto eu crescia na tua barriga, quantos sonhos tiveste antes de saberes a cor dos meus olhos, o tamanho das minhas unhas, antes de ouvires o meu primeiro choro, talvez o meu primeiro poema em língua ilegível. Passámos muitas horas juntos. Às vezes, lembras que te fazia cócegas, que me mexia mais de noite do que de dia, daí, talvez, a minha preferência pelo luar. No dia, que dizem que é teu, eu sei que os teus dias serão sempre uma extensão dos meus, por isso, a eternidade é a única medida que aceito para te homenagear. Acordar sempre com a tua voz serena e as tuas mãos suaves, é como se um anjo trouxesse os acordes de uma sinfonia feita de leveza à minha face morena. E nem imaginas como a tua voz apaziguada moldou a minha personalidade! Não falo dos ralhetes, porque esses faziam parte da ciência do crescimento, da coreografia do “faz-de-conta” para me responsabilizares. Prefiro lembrar-me dos dias em que me levavas à escola, das conversas que tínhamos durante a viagem. Quando em frente ao portão de ferro, do edifício branco da escola, a tua mão se desprendia lentamente da minha, o professor parecia um gigante, os meus olhos secavam e a minha vontade era fugir. Mas lembrava-me das recomendações e, por isso, eu cumpria sempre. Ficava sentado na carteira em frente ao quadro de ardósia, onde o professor encostava uma cana fininha, com que muitas vezes nos “afagava” as cabeças. Essas recordações ainda me iluminam o imaginário, atravessam como uma madrugada radiante os sentidos e devolvem-me a certeza de que os afectos são a pele da “alma”. Mãe, quando é o teu dia? A tua resposta encontro-a nos teus olhos quando estamos juntos, quando procuras as minhas mãos e dizes que “estão frias”, quando o teu abraço fica refém do meu pescoço. Eu sei que os nossos silêncios guardam segredos antigos, cumplicidades inefáveis e algumas promessas. Quando a tua neta nasceu, eu sabia que era o teu nome que lhe escorria da beleza que ela trazia, por isso, não hesitei. Sei que gostaste, sei que te lembras dessa promessa quando eu era adolescente e te disse que um dia ia ter uma filha com o teu nome. Das palavras que trocámos, na ocasião, ficou um aroma que a luz de Maio perpetua lembrando-me outras mães, como aquelas que se juntam na Argentina para lembrarem os filhos.
(in Diário de Coimbra).

Publicado por António Vilhena às 12:23 AM | Comentários (5)

maio 06, 2009

A gaivota que perdeu a pena

A gaivota que perdeu a pena no areal, ficou ligada a uma das mais belas histórias de paixão. As palavras escritas na areia molhada, com essa pena de gaivota, deixadas por um amante à sua amada e fotografadas por um turista acidental na praia de Almograve, serviram de verbete para a enciclopédia dos olhares perdidos. No final dessa mensagem, estava a pena, espetada na areia a representar um ponto de exclamação. O traço fino da caligrafia constituía um trabalho de filigrana, que a baixa-mar perpetuou. A objectiva do repórter registou essa escultura de emoções ancorada na praia e editou-a. Agora, as palavras estão nas páginas dos jornais de todo o mundo. A trilogia da paixão, ou seja, do amante, da amada e da gaivota, que perdeu a pena, acicatam a admiração e constituem um talismã para o namoro.

Publicado por António Vilhena às 02:14 PM | Comentários (0)

Esperança

Alimentar a esperança, em qualquer coisa, é mais do que espreitar o dia seguinte, é, principalmente, revisitar o passado, encontrar nas sombras os vestígios da nossa passagem, soletrar-lhes os diálogos incompletos, terminar, o que por qualquer razão, ficou por concluir. E foram tantas as oportunidades que se escoaram por entre os dedos, e foram tantos os equívocos que trouxeram ainda mais dúvidas e perguntas difíceis. A vida alimenta-se dessa hesitação que gera o medo e o seu contrário, embora este nem sempre tenha o mesmo nome. A esperança é o somatório das crenças que acantonámos na folhagem das expectativas e na constelação dos encontros. Muitos são os dias em que a névoa deixa ver para além do Bojador, mas poucos os que ousam vencer a sua inibição.

Publicado por António Vilhena às 10:56 AM | Comentários (1)

maio 05, 2009

Diário

Depois do regresso da lua estremunhada, agarro o diário de papel e rabisco o meu dia para memória futura. Não creio que tenha alguma utilidade, mas tranquiliza-me saber que posso repor a verdade dos acontecimentos quando a memória der lugar a coisas mais instantes. Um diário é uma película de verdades intransitivas que nos faz reviver o tempo dos deuses sobre a nossa pele. É uma galeria de tempo fora de tempo, uma espécie de espelho onde reencontramos o nosso esqueleto.

Publicado por António Vilhena às 09:56 PM | Comentários (3)

Fantasia, em Sol Maior

O Verão estava à porta, os professores davam as últimas aulas, aproximavam-se os exames, faziam-se os preparativos para a festa do colégio e o Alex parecia motivado com o sucesso de mais um ano lectivo. As duas peças de Mozart, que ia tocar como solista, tinham sido ensaiadas até à exaustão; na última semana tinha mesmo tocado de olhos fechados, um exercício que gostava de fazer para testar a sua agilidade e memória. Lembrava-se do conselho da Professora Ester, que repetia aos pequenotes da Academia de Música, onde aprendeu as primeiras notas: virtuoso é aquele que toca de olhos fechados depois de descobrir a sinfonia que há em cada nota. Por isso, imaginava sempre um bailado de estrelas ao som da Fantasia, em Sol Maior, ou da Sonata nº6, em Ré Maior, para piano. Apesar dos ensaios diários, depois das aulas, ainda tinha tempo para cuidar do velho Dino, dar-lhe comida e água, trocar alguns mimos e brincadeiras. Era assim todas as tardes, ocupava-se do papagaio que um amigo do pai lhe ofereceu como prenda de aniversário. O Dino veio de Angola, ainda bebé, num bolso de casaco, numa das muitas viagens que o Capitão Flávio Soromenho fez a África. Depois de mais um ensaio com a orquestra, Alex foi cuidar do Dino, abriu a gaiola e colocou o seu indicador no bico do papagaio, uma espécie de ritual que antecedia uma demorada sessão de limpeza e mudança de alimentos. Mas o inesperado aconteceu: o papagaio, num ápice, bateu as asas e fugiu perante o espanto e a tristeza do melhor amigo. Ainda deu algumas voltas sobre a varanda, talvez para fazer o reconhecimento do espaço, e depois desapareceu perante os muitos apelos de Alex para o fazer regressar à gaiola. Como era possível, depois de tantos anos e de muitos cuidados e carinhos, que o Dino tivesse fugido? A verdade é que a noite estava a cair, e embora os dias fossem maiores, a tarefa de encontrar o pássaro tornava-se mais difícil. Uma inquietação inesperada exigia uma resposta rápida: era necessário encontrar o Dino. Em frente à casa havia um bosque, um emaranhado de pinheiros e eucaliptos onde a passarada pernoitava, talvez tivesse sido esse o seu destino, talvez tivesse ido juntar o seu belo canto ao coro das outras aves que aí ensaiavam as melhores melodias. Estava lua cheia, esse manto de luz permitia ter alguma esperança, talvez, assim, fosse possível descobri-lo entre o arvoredo. Alex preparou uma mochila com aquilo que achou ser necessário para uma longa caminhada. Levou uma lanterna, sandes, sumos e uma bússola. Iniciou a sua viagem pelo bosque e lentamente percebeu as dificuldades para encontrar o seu amigo. As árvores eram altas e com muitos ramos o que dificultava a penetração do luar. Por outro lado, a passarada cantava, misturando os sons e, consequentemente, dificultando a possibilidade de ouvir o Dino. O cansaço acabou por vencer o Alex; depois de uma longa caminhada pelo bosque decidiu escolher um sítio para descansar. Encostou-se a um frondoso eucalipto que deixava passar o luar e pôs-se à escuta. Acabou por adormecer de tanto cansaço. Entretanto, a manhã chegou com a passarada a iniciar o dia. Ainda estremunhado, esfregou os olhos, e reparou que no ramo mais baixo da pernada estava o Dino abanando a cabeça, esfregando o bico curvo debaixo das asas coloridas. Alex não sabia se estava a sonhar, mas quando verificou que era mesmo verdade, saltou de contente e chamou-o. O animal desceu em voo picado em direcção à sua mão. O reencontro foi um momento de grande emoção e também a prova de que o Dino também procurou o Alex. Dois dias depois, no concerto do Colégio, a Fantasia, em Sol Maior, de Mozart foi dedicada a este reencontro em homenagem a todas as belas amizades.
(Publicado no suplemento Diário da Turma, do Diário de Coimbra)

Publicado por António Vilhena às 02:40 PM | Comentários (0)

Também morremos um pouco

Martinho Marques é um grande Poeta que este país, que é o meu, ainda não conhece. Com ele as palavras inclinam-se para levar o Sol ao alpendre dos homens, as emoções, se lhe embargam a voz, é porque sabe que o pão esconde as mãos e o trigo. A propósito da morte do Perfumista, Figueira Mestre, dizia-me que quando os amigos se vão, nós morremos, também, um pouco. É verdade! Mas as palavras do poeta chegam sempre com sentido diferente quando são esculpidas no ferro quente. Há uma existência que se abeira das perguntas difíceis, que interpela o quotidiano das vidas comuns, que se entrelaça ao existencialismo, que fere o tempo não vivido, que obscuresse o horizonte quando as vozes se silenciam. Das palavras que mimas, aquelas que te conhecem, sabem que não careces de círios para lhes iluminares o sentido. Os poetas da luz e da terra, da água e da distância, misturam a num verso o mundo da vida e da morte.

Publicado por António Vilhena às 12:45 AM | Comentários (1)

maio 04, 2009

O Perfumista foi embora























Joaquim Figueira Mestre foi embora. O autor de O Perfumista faleceu hoje de madrugada, vítima de doença prolongada. Este tipo de doenças nós sabemos quase sempre do que se trata. Foi embora um perfumista da palavra, um alentejano que colocou Beja no mapa dos grandes eventos culturais. Era director da Biblioteca José Saramago na capital do Baixo Alentejo, onde me acolheu, para apresentar os meus livros, como um verdadeiro mestre de cerimónias. Era implacável quando não gostava, mas também uma nuvem de algodão quando simpatizava. Coisas de humanos em terra de homens. Deixo-lhe um abraço e esta luz de Maio que, de repente, se ocultou para este filho da planície. No Hades a sua sombra fará sombra.

Publicado por António Vilhena às 03:20 PM | Comentários (1)

Luz de Maio

Estremunhados esvoaçam a vulso das copas das árvores, soltam os primeiros ensaios para afinar os cantos, as penas soltas da passarada são meteoristos bailando ao sabor do vento, os seus voos são pulinhos de contentamento, enchem o céu e convidam ao banho da luz de Maio. Neste mês, os aromas desnudam-se orgiasticamente nos sentidos, trazem a antiguidade que se perpetua numa pétala, adoçam os dias e desenham sabores nas iris. A luz de Maio é a lareira quente dos amantes, é sob o seu espectro que as alamedas chamam os corpos para o ofício do prazer. Ali, as clareiras das árvores misturam as sombras e os beijos numa cascata de sensualidade tecida de fios de luz. As palavras do amor são desnecessárias, apenas o que se sente fica gravado na pele e no silêncio difuso da cumplicidade. Todos os instantes são demoras inúteis se a paixão clama o eco dos lábios nas pálpebras de uma cegueira que se quer eterna.

Publicado por António Vilhena às 10:42 AM | Comentários (0)

maio 03, 2009

Dia da mãe

Hoje compreendo por que não há dias dos filhos, eles estão todos os dias nas vidas dos pais, enchem-lhes os dias e as noites e transbordam para lá das insónias para regressarem ao conforto sem condições. Neste "Dia da Mãe" existe a ilusão de que este é mais especial do que todos os outros, mas os dias que antes e depois persistem são, talvez, os que mais importam, porque permanecem longe do reconhecimento público, do comércio e das promoções da indústria. Imagino a gravidez da minha mãe, a barriga a crescer-lhe, os diálogos que tivemos, ainda eu era um frágil embrião e tudo o que queria era arranjar forças para crescer, e esperar por esse dia 14 de Outubro, para soltar um "Olá" ao mundo. Imagino o que a minha mãe pensou antes de saber que era um rapaz, antes de saber a cor dos meus olhos, antes de saber que lhe dedico toda a eternidade. A sua paciência fez com que eu seja mais tolerante do que ela, a sua dedicação ensinou-me a ser perserverante, a sua lucidez dotou-me da metafísica para duvidar das verdades perfeitas e dos seres imaculados, a sua ternura deixou-me o modelo da afectividade, possivelmente, um dos pilares estruturantes do crescimento.Por isso, a minha mãe foi uma barragem na defesa da minha intimidade física e psicológica, devo-lhe os punhos de renda com que teço a linguagem e esgrimo a discordância. Neste dia, em que dizem ser das mães, ergo-lhe uma escultura infinita onde os pássaros ensaiam os seus cantos para homenagearem os que amam.

Publicado por António Vilhena às 12:19 AM | Comentários (1)

maio 02, 2009

Banquete da fé

O céu azula o olhar
como se Narciso espreitasse a sul
os óxidos brancos da cal
as casas da planura e a pele morena
como se os deuses chamassem as árvores
ao banquete da fé
e à tardinha as cigarras baloiçassem
com as estrelas a valsa do trigo.

Publicado por António Vilhena às 03:52 PM | Comentários (3)

Jerónimo, S. Tomé







Jerónimo de Sousa, Secretário Geral do PCP, não quis comentar o caso Vital Moreira, alegando que não viu as agressões e nem ouviu os insultos. Eu compreendo a delicadeza do assunto e o embaraço de Jerónimo de Sousa. O único comentário possível seria lamentar e condenar o sucedido mas, isso iria, talvez, ser interpretado por aqueles militantes do insulto e da intolerância como uma inaceitável falta de solidariedade. Afinal de contas, trata-se de um "traidor", um daqueles que deixaram o partido para se juntar à reacção. Jerónimo de Sousa usando o mesmo critério talvez não acredite, porque não viu, na morte de Catarina Eufémia, nem de Bento Gonçalves, nem de Militão Ribeiro. Pelo mesmo critério, de só comentar o que vê, não pode esboçar opinião sobre a 99,9% daquilo que existe, porque não tem o dom da ubiquidade. Fantástico! A partir de hoje, Jerónimo de Sousa acrescenta ao seu nome o do santo: S.Tomé.

Publicado por António Vilhena às 03:17 PM | Comentários (1)

maio 01, 2009

Vital Moreira

O 1º de Maio trouxe devolta o pior da democracia desde o 25 de Abril. A violência como sinónimo de intolerância, de miopia partidária, sectária e estalinista. A agressão a Vital Moreira por militantes, muito próximos do PCP, na manisfestação da CGTP, é uma amostra daquilo que teria sido Portugal, caso este partido tivesse ganho o 25 de Novembro. A memória permanece viva, e estes episódios encarregam-se de nos lembrar que ainda há quem se sinta desconfortável em democracia. Foi miserável num país democrata, mas este caso traz-nos à memória o que aconteceu com Mário Soares na Marinha Grande. Pode ser que tenha o mesmo resultado.

Publicado por António Vilhena às 11:25 PM | Comentários (2)