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junho 26, 2009
Espirra
“Espirrar é bom”, dizia, repetidamente, aos turistas que frequentavam a tasca. Ao longo dos anos aprendera que pó de açucar amarelo e cebola tinha um efeito estranho: espirrava infinitamente. Daí a sua alcunha: Espirra. Os anos consolidaram-lhe a adopção e, no bairro, todos o conhecem por esse ”nome”. Os turistas encontram no guia da cidade uma referência especial à tasca do Espirra, uma espécie de galeria, com as paredes pejadas de fotos de visitantes ilustres, de autógrafos, de recordações. Essa mistura de açucar amarelo e cebola transformou-se num ícone do bairro e um "chama-turistas", que não se coíbem de atravessar a cidade para irem ensaiar uns espirros, com direito a levarem para casa uma amostra dessa miscelânia em troca de alguns euros. É tudo uma questão de ter espirro para o negócio.
Publicado por António Vilhena às 10:09 AM | Comentários (0)
junho 25, 2009
Caça tatuagens
Nas veias as sanguessugas escrevem epístolas sedutoras aos incautos amigos do repouso, elas movimentam-se com a liberdade das baratas no palácio real e festejam os dias de verão com a mesma informalidade com que os cães vadios farejam os caixotes do lixo. O surreal destes encontros está na sua vocação para sugar as tatuagens em sítios recatados; andam quilómetros nas veias em busca destes carimbos na pele e, depois, lançam o conteúdo na corrente sanguínea para intoxicarem a líbido desses adeptos das mascarras. As sanguessugas têm agora uma nova actividade, limpar as peles dessas tintas cancerígenas em nome de uma ecologia que escorra de dentro.
Publicado por António Vilhena às 03:35 PM | Comentários (1)
junho 24, 2009
Fernando Dacosta, comunicador de seda.
Ao longo dos anos habituei-me a que Fernando Dacosta fosse um sedutor de palavras, que exercesse o fascínio sobre o significado, que convocasse as histórias dos homens para cultivar a memória viva, com gente dentro, com emoções, com sabedoria. Mas o escritor de Os Mal-Amados é um comunicador que tece com palavras sedosas as narrativas que não podem esperar, que urgem ser contadas para alimentarem de lava a paisagem, onde se misturam os substantivos que não carecem da mão invisível da gramática. As suas memórias de jornalista, de escritor, de homem que partilhou a existência com personalidades que enchem o nosso imaginário comum, desfiam-se com naturalidade quando a tertúlia resvala pela noite dentro.
Fernando Dacosta pertence à iguaria dos escritores bafejados de talento. No dia 19 de Junho de 2009, em Coimbra, uma plateia de amantes de palavras saciaram os sentidos com a luminosidade das suas histórias. Foi um privilégio, um momento histórico, estar ali entre tantos.
Publicado por António Vilhena às 02:36 PM | Comentários (2)
junho 23, 2009
http://www.lastfm.pt/music/Koop
A não perder. É mais do que ouvir, é entrar na dimensão mágica dos sentidos:
Hello my love/
It's getting cold on this island/
I'm sad alone/
I'm so sad on my own/
The truth is/
We were much too young/
Now I'm looking for you/
Or anyone like you/
We said goodbye/
With a smile on our faces/
Now you're alone/
You're so sad on your own/
The truth is/
We run out of time/
Now youre looking for me/
Or anyone like me/
Na na na na/
Hello my love/
It's getting cold on this island/
I'm sad alone/
I'm so sad on my own/
The truth is/
We were much too young/
Now I'm looking for you/
Or anyone like you/.
Publicado por António Vilhena às 12:38 PM | Comentários (3)
Sem tempo...
O tempo, “esse grande escultor”, de que falava Yourcenar, é a medida da nossa capacidade para nos ajustarmos aos desafios. Nem sempre conseguimos a elasticidade necessária para tornar os nossos braços suficientemente gigantes e tocar todos os cumes. Mas o segredo é a persistência, esgueirar os sentidos para lá do horizonte na busca incessante da montanha, procurar na música clássica o ébrio equilíbrio das contradições e, num golpe asa, juntar o céu e a terra para adocicar os lábios com que beijaremos a serenidade.
Publicado por António Vilhena às 10:48 AM | Comentários (3)
junho 17, 2009
Tertúlia com Fernando Dacosta, em Coimbra.
Fernando Dacosta é o próximo convidado da Tertúlia Académica que reúne dirigentes da Direcção Geral da Associação Académica de Coimbra da década de oitenta. O jantar/tertúlia será no restaurante "O Espanhol", em Coimbra, dia 19(sexta-feira) de Junho de 2009. Esta é uma oportunidade para ouvir o escritor falar do seu último livro Os Mal-Amados, dos bastidores da política depois do 25 de Abril, de personalidades únicas que marcaram o seu tempo, tais como Sá Carneiro e a sua paixão Snu, de Natália Correia e Amália Rodrigues, de José Saramago e Vera Lagoa. Um convite a não perder.
Publicado por António Vilhena às 10:43 PM | Comentários (2)
junho 16, 2009
Vasco Lourenço no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.
Vasco Lourenço apresenta hoje o seu livro, Do Interior da Revolução, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, às 18h.
Algumas verdades que atravessaram em silêncio mais de trinta anos de revolução contadas na primeira pessoa por um operacional, podem servir de argumento para uma conversa intimista,ao cair da tarde, sobre os bastidores do 25 de Abril de 1974.
A não perder!
Publicado por António Vilhena às 12:45 PM | Comentários (0)
junho 15, 2009
A paixão dos homens
Uma amiga e colega psicóloga enviou-me uma mensagem, diria um aviso de alerta, uma espécie de grito em busca de socorro contra os homens previsíveis, aquele tipo de comportamento padrão, que parece estar nos seus genes. O seu problema era muito elementar. Ele, a sua conquista, teimava em faltar aos encontros e ela não compreendia. Por isso, pedia ajuda para interpretar o problema, queria saber se a”culpa” era dela ou dele, do género da guerra. Esta questão consumia-a, estava mesmo à beira de um ataque de nervos. Depois de uma breve conversa ao telefone, pediu-me que escrevesse qualquer coisa, porque isso iria ajudar muitas mulheres. Não lhe disse, julgo, nada de novo. Apenas reflecti com ela sobre as razões possíveis do comportamento da sua conquista, sobre as diferenças de expectativas de um homem e de uma mulher quando estão apaixonados, sobre os receios inerentes à perda, sobre as histórias pessoais que influenciam muito a forma como interpretamos essas situações e, principalmente, os traços da nossa personalidade.
Na história dos afectos o homem está quase sempre no quintal, enquanto a mulher aguarda dentro de casa que o seu “amante”, aquele que ama, seja ousado e tenha iniciativa. Às vezes, este guião não condiz com as leituras que fizemos, e as imagens que percorrem o horizonte não passam de borrões e sombras de príncipes e princesas. Na história da paixão, “movimento colectivo a dois”, como lhe chamou Alberoni, o insignificante assume dimensões de catástrofre.
Publicado por António Vilhena às 06:45 PM | Comentários (5)
junho 12, 2009
O mito de ser CR7
A transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid, como a mais cara, envolvendo cerca de 10 milhões de euros, em tempos de crise, deixa-me a pensar sobre os excessos de que o ser humano é capaz para satisfazer o ego e a vaidade.
Mais do que encarar este acto como uma oportunidade de mercado, questiono-me se o “nosso” CR7 é realmente merecedor de um negócio que envolve uma tão estrondosa quantia. Depois fico a pensar se os jovens que seguem o ídilo sentem, ainda, necessidade de estudar. O trágico é que a realidade é bem diferente. Há jogadores no desemprego, clubes falidos e uma indústria milionária de futebol, mas onde apenas alguns, poucos, têm entrada. A vida ensina que o saber é um dos poucos instrumentos capaz de ser utilizado como uma chave mestra.
Publicado por António Vilhena às 04:16 PM | Comentários (2)
Cavaco vs Salgueiro
Os anos ensinaram-nos que o Professor Cavaco Silva é casto em emoções, tem dificuldades em exteriorizar o que lhe vai na alma. A dificuldade e o embaraço que demonstrou na homenagem a Salgueiro Maia, no dia 10 de Junho, foi apenas mais um episódio na longa lista da sua vida pública. Ao homenagear Salgueiro Maia como Presidente da República não se terá esquecido, quiçá, de outro momento infeliz, ao ter recusado, enquanto Primeiro Ministro, a reforma à viúva. Talvez, que esta recordação lhe tivesse roubado o brilho e ensombrado uma sentida e justa homenagem ao homem que não temeu o adamastor.
Publicado por António Vilhena às 12:14 PM | Comentários (1)
junho 09, 2009
Os bonés da PSP
Os bonés dos polícias lançados ao chão, junto à residência oficial do primeiro-ministro, foi dos actos menos dignos da história da PSP. Como é que eu vou dizer ao meu filho que os polícias são o garante da ordem e da disciplina? Num estado de direito a condição policial não pode ser posta em causa, principalmente, pelos comportamentos agressivos, musculados e as palavras impróprias dirigidas ao primeiro-ministro. Eu sei que alguns profissionais têm poucas habilitações literárias, mas têm um código de conduta que lhes devia ser lembrado com carácter de urgência. Senti-me envergonhado de ter de respeitar a PSP.
Publicado por António Vilhena às 11:24 PM | Comentários (3)
Selo de Salomão
A poeira simbólica que povoa o horizonte onde apaziguamos os sentidos é um claustro de colunas, onde os artesãos dos templos gravaram os mistérios, onde a geometria e os deuses sensualmente se revelaram. Os símbolos trazem, desde sempre, a vontade de uma presença e o desejo da eternidade, ocupam na história das culturas o lugar da chama eterna, aquela que fica para além das trevas, depois da efémera viagem. O Selo de Salomão é um dos símbolos mais fascinantes, ao longo dos tempos foi utilizado por uma semiótica diferenciada e, às vezes, polémica.
Publicado por António Vilhena às 12:48 PM | Comentários (2)
junho 08, 2009
António Lúzio Vaz, um homem de missão.
Ao longo da nossa vida vamos encontrando pessoas que nos surpreendem pela sua admirável capacidade de se entregarem aos outros, de se despojarem das vaidades e do falso brilho das coisas. Num mundo materialista, onde os apelos convergem para “o império do efémero”, os que ficam fora desta sombra parecem desprotegidos, deslocados, “sonhadores”, “poetas” ou “loucos”. Mas, não é bem assim. Aqueles que escolhem a missão de servir, normalmente, são discretos, não gostam que se saiba que praticam o bem, não chamam os jornalistas para anunciar um donativo, não se oferecem para jogos de “caridade”. Às pessoas solidárias basta-lhes a sua consciência, a satisfação do dever cumprido. O povo gosta daquelas pessoas que olham nos seus olhos, que estendem a mão sem preconceitos, que sabem escutar e sentir as suas dores; o povo não gosta de se sentir humilhado, discriminado ou apoucado. Ainda há quem faça da sua força a fraqueza dos outros. Quando falamos de alguém que nos marcou a vida torna-se mais difícil encontrar a distância adequada para tecer comentários justos e isentos. Mas há momentos em que não se pode enclausurar as emoções, acantoná-las no pudor, pedir-lhe para esperarem por “outro século”. Infelizmente, temos a tradição de só falar bem das pessoas depois de estas terem morrido. E nestas ocasiões aparece sempre um redentor que leva no mesmo saco o trigo e o joio. Não sou defensor desta tradição, prefiro a verbalização das emoções olhos nos olhos. A Orquestra Clássica do Centro realizou recentemente o “Concerto Prestígio António Lúzio Vaz”, que por razões familiares não assisti. Apesar de achar discutível o formato, rendo-me ao homenageado, por entender que é merecedor de todas as honrarias e, mesmo assim, ainda lhe ficamos devedores. Este é o exemplo de um homem de missão, alguém que tem o seu nome gravado no coração de milhares de jovens que tiveram o privilégio de se cruzar com ele, como responsável dos Serviços de Acção Social Escolar da Universidade de Coimbra. A sua generosidade não tem tamanho, vai de Zénite a Nadir; emprestou sempre a sua sabedoria para interpretar e não para julgar, foi sempre mais amigo do que administrador, foi sempre um homem leal e frontal. António Lúzio Vaz é um mago da amizade, é um provedor dos aflitos, um homem com uma dimensão humanista que gosta de citar Cícero e cantar a “Pedra Filosofal”. Não gosta da etiqueta, quando esta traz o ferrete da hipocrisia, não tem paciência para alguns políticos da nossa Praça, a vida tem urgências inadiáveis que não o fazem perder muito tempo em retóricas de café. É um pragmático, mas convoca as palavras dos poetas para motivar os seus colaboradores. Tem as qualidades de quem cresceu a pulso e não se esqueceu. E nestas ocasiões este meu exercício é-lhe embaraçoso, mas é-lhe devido. Ele mudou a vida de muitos jovens, com a sua assinatura devolveu a esperança e a dignidade a muitos estudantes bolseiros que, de outra maneira teriam encontrado as trevas. A verdadeira homenagem a este homem bom, advogado e responsável dos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra, só seria uma realidade, se o justo preito implicasse a mobilização de muitos milhares que gostariam de lhe proporcionar a alegria desse instante. Quando agradecemos a alguém o privilégio de partilharmos a sua bela amizade, é como se lhe disséssemos que os dias são intemporais, que as noites são o tempo da memória perene onde perpetuamos as cumplicidades e exaltamos “os nomes da coisas” que em comum vivemos. Ao António Lúzio Vaz deixo-lhe as veias intactas e suculentas, os silêncios e as palavras com que sempre o distingui. Para um amante de música clássica, um “Concerto de Prestígio” é uma gota chuva na sensibilidade, uma janela para espreitar as flores do seu gabinete de trabalho e escutar a “Flauta Mágica”, de Mozart. Enquanto houver homens bons, como António Lúzio Vaz, o mundo não precisa de santos.(in Diário de Coimbra)Publicado por António Vilhena às 11:51 AM | Comentários (2)
junho 02, 2009
Soturnidade
Estes dias azuis e com muita “espuma”, como lhe chama a minha filhota de dois anos, sob o alambique, deixam uma nostalgia inconsequente. Não se percebe por que é que a soturnidade, de que nos falava Cesário Verde, é tão verdadeira quando os pássaros em revoada regressam às copas das árvores, quando o cheiro a urze fende os aromas separando a essência das horas. Há um vício de olhar, talvez, um vício de pensar o regresso das trevas como uma porta secreta que nos conduza à luz e não à sombra esmagadora da cultura judaico-cristã.
Publicado por António Vilhena às 08:06 PM | Comentários (1)
"Os Lugares Cativos"
Apresentar o livro de poesia de José Jorge Letria, Os Lugares Cativos é uma oportunidade para trazer do seu Moleskine de viagens as palavras que se revelam sob um título feliz, onde se combina a luz, a noite, o branco e o imaginário grego.
Na sessão será ainda apresentado FRAGMENTOS DE UM FASCÍNIO
, Sete Ensaios sobre a Poesia de José Jorge Letria de Teresa Carvalho e Carlos A. Martins de Jesus, pela Doutora Maria do Céu Fialho.
A sessão será dirigida pelo Prof. Doutor José Ribeiro Ferreira e decorre na Livraria Minerva (rua de Macau 52 - Bairro Norton de Matos), em Coimbra, dia 4 de Junho, às 18h30.
Publicado por António Vilhena às 11:48 AM | Comentários (1)
junho 01, 2009
Dia da criança
O que se escreve, o que se ouve e o que se sabe sobre crianças maltratadas, muitas vezes ao lado da nossa porta, é um sinal de que a civilização carece de um verdadeiro puxão de orelhas. Estes dias servem, também, para lembrar aos que têm muita pressa, aos que acham que os filhos são um incómodo para as suas carreiras profissionais, aos que se sentem sufocados pela “energia” das crianças, aos que escolhem ir, sempre, a lugares que eles, pais e adultos, gostam, aos que ficam muito zangados quando as crianças não comem sopa. Este dia serve para muita coisa, mas serve, principalmente, para aprendermos a gostar ainda mais das crianças, de todas, e acrescentarmos um pouco mais de tolerância, de paciência, de dedicação, de pedagogia e civismo na construção desse grande e delicado edifício que é crescer, a mais bela aventura da humanidade. Crescer é difícil, é um processo que envolve uma disponibilidade incondicional daqueles que têm a responsabilidade de estar à distância de uma mão, daqueles que deviam ser os primeiros a compreenderem que os seus beijos e abraços são o cimento que fortalece a relação com as crianças, que lhes transmite segurança, que lhes ensina que a paz, pode começar com uma ternura e prolongar-se numa história ao adormecer.
O dia da criança devia servir, também, para sensibilizar os pais detraídos, os pais mal-amados, as famílias problemáticas. Só poderemos dar às crianças o afecto que já não é nosso, porque lhes pertence, porque a nossa existência só faz sentido com “as melhores coisas do mundo” - as crianças.
Publicado por António Vilhena às 11:37 AM | Comentários (0)