« julho 2009 | Entrada | setembro 2009 »
agosto 27, 2009
Frederico Lourenço
A tradução do grego para português da “Odisseia”, de Homero, poema do século VIII antes de Cristo, trouxe-o para a ribalta, foi mimado, admirado, entrevistado, objecto de encómios próprios dos heróis homéricos. Frederico Lourenço nasceu em Lisboa, mas fez a instrução primária em Inglaterra (Oxford), tendo-se dedicado, mais tarde, ao estudo da música no Conservatório Nacional e, também, na Escola Superior de Música de Lisboa. O classicista, o romancista, o docente da língua grega está de malas aviadas para Coimbra. Vem leccionar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Este mediático professor universitário, licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas e doutorado em Literatura Grega pela Universidade de Lisboa, com uma tese sobre Eurípides, cujo júri incluía Maria Helena da Rocha Pereira (Universidade de Coimbra) e James Diggle (Universidade de Cambridge). É este docente e, simultaneamente, exímio pianista, que vem emprestar o seu “glamour” à mui nobre e vetusta Universidade de Coimbra. Vem como professor associado, tendo sido aprovado por unanimidade pelo júri.
Tradutor da “Ilíada” e da “Odisseia”, de Homero; das tragédias, “Hipólito” e “Íon”, de Eurípides; e da antologia “Poesia Grega de Álcman a Teócrito”.
Como ficcionista publicou uma trilogia de romances: “Pode um Desejo Imenso” (2002, prémio PEN Clube 2002), “O Curso das Estrelas” e “À Beira do Mundo”, uma colectânea de contos “A Formosa Pintura do Mundo” (2005) e dois livros autobiográficos: “Amar não Acaba” (2004) e “A Máquina do Arcanjo” (2006).
É um autor premiado. Destacam-se:
2002: Prémio PEN Clube 2002 (Primeira Obra).
2003: Prémio D. Diniz da Casa de Mateus.
2003: Grande Prémio de Tradução - APT (Assoc. Port TRAD)/ PEN Clube 2003.
2006: Prémio Europa – David Mourão-Ferreira.
É este o diamante que Coimbra, cidade com ambição, acolhedora e cosmopolita, se prepara para receber. O que terá levado Frederico Lourenço a escolher a cidade de Pedro e Inês? Quaisquer que sejam as razões, importa saber que Coimbra fica mais rica, que há um júbilo que contagia aqueles que se banham nas águas estéticas do mundo clássico. A notícia surpreendeu, parecia um conto de fadas, um raio luminoso saído de um buraco negro, uma invenção de Cassandra, uma astúcia de Ulisses.
A Ítaca de Frederico Lourenço é Coimbra, aqui encontra a “Atena de olhos garços”, a “Aurora de róseos dedos” e a divina entre as deusas: Calipso. Também se encontra a sombra de Antero de Quental, na escadaria da Sé Nova, a vasta melodia da canções do Zeca Afonso e de Adriano Correia de Oliveira. Há nesta mistura de sons e de memórias o eco das palavras que se combinam para que os poetas exaltem os instantes que não podem ser adiados. Toda a luz é um clarão de luminosas utopias que se libertam das trevas para iniciar os homens na verdade e na beleza.
Ulisses prometia, em resposta a Penélope, no seu regresso a Ítaca:
“(...) contar-te-ei tudo, sem nada te ocultar”.
Que o amor de Frederico Lourenço a Coimbra “dure mais que uma hora”.(Pubicado no Diário de Coimbra)
Publicado por António Vilhena às 01:29 AM | Comentários (0)
As palavras 2
A princípio era difícil compreender o que tinha acontecido. Cogitava sobre o passado, revia os pequenos gestos, às vezes, até à exaustão, sem nunca chegar a conclusões. Lá em casa havia uma gata preta que gostava de se espreguiçar sobre um velho sofá de cabedal castanho. As suas unhas transformaram-no numa cascata de arranhões. A sua única companhia era a gata, que se enroscava nas suas pernas em busca de mimo. Quando ele abria a porta trepava todos os móveis até o dono lhe abrir os braços...Publicado por António Vilhena às 01:13 AM | Comentários (2)
agosto 25, 2009
As palavras ....
Ela escreveu-lhe um papelinho, um simples bocado de toalha de papel, onde se podia ler as razões da sua ausência. Ele guardou-o na algibeira das calças como se fossem umas chaves. Sempre que precisava levava as mãos aos bolsos, desembrulhava o papel e corria os olhos sobre as pouquíssimas palavras. Depois ficava em silêncio, talvez tentando adivinhar o que aquelas palavras não diziam. Durante algum tempo este foi um ritual de repetição que ocupou os seus dias.(continuação amanhã).Publicado por António Vilhena às 04:02 PM | Comentários (1)
agosto 20, 2009
Do vento suão...
Os sinos espalham a sua melodia pelos vales da imensa planície, leva-a o vento suão até às copas volumosas dos sobreiros, misturando a melopeia natural com o sonhos do homem da terra. É assim que os poemas se erguem pela mão calejada de quem sabe tudo sobre os rebanhos e o nascer do sol, sobre as açordas e os partos silvestres dos bezerros, sobre o silêncio e o amor dos dias à volta de uma fonte de encontros. Tudo isto no meu Alentejo.
Publicado por António Vilhena às 12:07 PM | Comentários (2)
agosto 13, 2009
António Alves, embaixador da solidariedade
Quem te conhece sabe que o universo é pequeno para acolher a tua generosidade, que trazes as emoções alapadas na pele, que inventas o impossível para que a solidariedade não seja uma palavra desprovida de sentido. O menino Samuel, moçambicano, que acolheste na tua casa, na Figueira da Foz, vítima de um crime hediondo, ocupou-te a vida nos últimos anos, foi a tua causa. O teu coração tem as dimensões de um templo universal, entra nele qualquer cidadão do mundo, não importa o seu credo. O teu gesto de partilha sem condições é um exemplo que belisca o egoísmo que grassa neste tempo comum. Devemos exaltar o teu desprendimento, ele serve-nos para desocultar os mais nobres valores do homem, revelando o quanto podemos fazer pelos outros, aqueles que, às vezes, não têm quase nada. Numa sociedade de consumo, onde se cultiva a indiferença social, a tolerância ao sofrimento dos outros tem tendência a escavar um abismo intransponível e a interpor barreiras de insensibilidade, condenando os mais desprotegidos à sua sorte. Os cidadãos têm responsabilidades individuais e não podem ficar reféns das iniciativas dos poderes políticos. A disponibilidade de António Alves para receber na intimidade da sua família um jovem, que carecia de apoio para se submeter durante longos períodos aos cuidados médicos de que necessitava, é uma cartilha de valores que nos deve fazer reflectir. Na história da Figueira da Foz há um punhado de homens que ergueram a fraternidade como pássaro de outras liberdades, aproximarem os homens das suas origens, perpetuaram o mar e as vidas difíceis na arte dos que ousam sonhar com a dialéctica das palavras. Esses vindouros arquitectos do bem souberam esculpir, como uma construção na areia, a beleza interior que sentimos quando nos confrontamos com exemplos de vida como o de António Alves. Apetece dizer que contra as forças do mal, venceram o amor e a dignidade humanas. O jovem Samuel será um homem diferente. A sua tragédia pessoal, que teve um final feliz, não deixará de lhe proporcionar muitas reflexões. E uma delas, será, certamente, a de que no mundo não há só vilões. A cultura dos afectos e da partilha, da tolerância, da solidariedade e da justiça ainda são a matriz dos direitos do homem. Escasseiam-me os adjectivos quando reencontro a alegria e a emoção que fustigam o rosto do homem bom, António Lopes. Mas é com facilidade que reencontro no universo de Fernando Pessoa esta pérola de Ricardo Reis, que lhe endereço, porque a sua vida foi sempre um hino à beleza: Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.Publicado por António Vilhena às 12:46 AM | Comentários (0)
agosto 12, 2009
Samuel
Aleviado pelo bem que praticou mas emocionado pela circunstância de Samuel voltar a Moçambique, António Lopes, cidadão da Figueira da Foz, deixa-se envolver pela constelação de afectos. O jovem que foi mutilado sexualmente, vítima de um crime hediondo, ainda criança, encontrou na intimidade da família de António Lopes o conforto necessário para recuperar de algumas intervenções cirúrgicas. A despedida nestas circunctâncias assemelha-se à ave ferida que é devolvida ao seu habitat. O mundo deve conhecer o coração gigante deste português que bate mais forte quando os outros sofrem. (amanhã publico crónica sobre este assunto)Publicado por António Vilhena às 04:33 PM | Comentários (0)
agosto 11, 2009
Da luz...
Ela trouxe o pão fresco, a manteiga, o jornal, o chá fumegante, o leite frio e um sorriso espraiado pelas sombras da manhã. Trouxe tanta coisa que não cabe na luz de um corpo. Às vezes, fica um silêncio na silhueta que define outras ausências, alimentadas pela escultura do horizonte. Depois, a luz derrama-se na pele e incendeia a água cristalina da fonte amorosa.
Publicado por António Vilhena às 12:05 PM | Comentários (1)
agosto 10, 2009
Regressos
Depois da areia dourada, do mel derramado na espuma das algas e dos voos rasantes das gaivotas, um coro de olhares espalha-se nas sombras para incitar o sol a descer lentamente para o ocaso, levando consigo o segredo das peles morenas que se espalham no areal como esculturas destraídas e lânguidas, atraindo a gula dos predadores.
Para trás fica sempre um passado, que viaja para um tempo próximo, onde se guardam os instantes que adocicaram os feiticeiros da paixão. De regresso aos livros, às palavras, à música, à vida das rotinas e do improviso, às "Fúrias", este recanto de prazer e de encontros.
Publicado por António Vilhena às 12:07 PM | Comentários (1)
agosto 06, 2009
Maria José Nogueira Pinto e o dom da ubiquidade ideológica.
Maria José Nogueira Pinto( M.J.N.P) deve ser um caso de estudo na política portuguesa. Nas autárquicas, em Lisboa, vai na lista do Partido Socialista contra Pedro Santana Lopes, apoiado pelo PSD; na legislativas vai na lista de deputados, em Lisboa, pelo PSD contra o PS. Em Portugal tudo ou quase tudo é possível, por isso, não estranho, embora considere pouco normal esse dom da ubiquidade ideológica.
Mas os eleitores devem perguntar se M.J.N.P vai fazer campanha ao lado de Manuela Ferreira Leite ou de José Sócrates? Acredito que ela não vai aguentar a pressão e a incoerência e, por isso, vai decidir-se em nome da transparência política e, principalmente, da sua dignidade pessoal.
Publicado por António Vilhena às 12:48 AM | Comentários (0)
agosto 05, 2009
As férias...
Publicado por António Vilhena às 01:04 AM | Comentários (0)