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setembro 10, 2009

O mistério da ausência

O regresso às aulas permanece no imaginário de todos nós como um fogo sagrado da infância. Os cadernos, as borrachas perfumadas, os lápis, as mochilas e, principalmente, o reencontro. A ansiedade que antecipava o regresso à sala de aula era uma espécie de catedral onde se combinavam as angústias e os desejos. Rever cada rosto como se revisitássemos uma rua, soletrar todos os sinais e reencontrar os seus significados para trazer de volta a intimidade que as longas férias quebraram, era desocultar o mistério da ausência. O Verão era imenso, era uma eternidade que fazia esquecer a escola, que nos permitia reinventar o tempo das cigarras e adocicar os afectos. Ter as horas dos deuses para espraiar os sentidos nas luminosas manhãs do Alentejo era chamar pelo prodígio de uma liberdade esculpida sem adornos nem dogmas. O sentido da vida tinha explicações simples, a brincadeira era a mais complexa de todas. Com o regresso das aulas era necessário desfazer essa teia de paciência, tecida ao longo de muitos dias; os rios querem-se fortes para espreguiçarem os seus leitos nos sinuosos caminhos da sua viagem. E, tal como as líquidas forças, as crianças querem-se livres dos espartilhos que condicionam a sua plasticidade. A paleta das escolhas, constelação de acasos e mistérios, oferece-se como as margens, suavemente, para acolher a sensualidade da natureza. Cada paisagem criativa é uma dádiva natural que teima nas suas confidências em devolver às crianças o melhor do criador. As minhas “férias grandes”, como eram chamadas, devolvia-me à linguagem da terra, ao canto dos pássaros, às ondas gigantes das searas, ao convívio dos filhos dos outros, que se tornavam meus amigos, às caçadas na companhia dos crescidos e, também, à biblioteca. Havia em tudo isto “o mistério da ausência”, uma oculta presença que anualmente teimava regressar com os seus segredos mas, principalmente, com a disponibilidade de seduzir os fiéis da férias. Depois de muitos dias sem os amigos habituais, o primeiro dia de aulas adensava a pergunta: - Onde estiveste? A resposta era o princípio de uma renovada cumplicidade. Depois entrava o professor, os corpos ficavam hirtos, o silêncio era uma espécie de nuvem respeitadora que se espalhava por toda a sala. Sentiamos um espécie de formigueiro, uma inquietação. Afinal, os sinais repetiam-se anualmente, mas naquele ano havia um mistério perturbador: a nossa professora tinha ido para outra escola. Por que nos abandonou? Aquela professora primária que nos ensinou a ler, a contar, a olhar o mundo com os olhos de Apolo tinha deixado saudades em cada um dos seus alunos. Um silêncio triste escorreu em cada uma das faces dos meninos que teimavam em saber por que razão a sua professora não estava ali no regresso às aulas. Aos poucos a resignação converteu-se e a luz começou a entrar pelas janelas. Fomos chamados pelos nomes e, no final, o novo professor leu um poema do poeta João de Deus. O nome deste poeta ficou-me para sempre na memória, associado a um dos dias do regresso às aulas. Evoco-o para lembrar que, no regresso às aulas deste ano de 2009/10, o nome de João de Deus cruzou-se novamente com essa memória. Mas agora, porque levei pela mão o Rodolfo Alexandre e a Susana Beatriz ao 1º Jardim Escola do poeta e pedagogo. Os fios das gerações unem-se, também, pelas vozes dos poetas que revelam alguns mistérios e, também, algumas inspiradoras ausências. (in Diário de Coimbra).

Publicado por António Vilhena às 12:22 AM | Comentários (1)