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outubro 30, 2009
A crise de horas na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
A redução do horário disponível para os utilizadores da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra tem sofrido alterações bastante gravosas desde há um ano. Dantes a Biblioteca fechava às 23horas, agora fecha às 22horas. Durante o mês de Agosto fechava às 17h30, horário que se prolongou durante o mês de Setembro. Hoje, dia 30 de Outubro de 2009, está um comunicado afixado que diz que a Biblioteca encerra às 17h30 por razões de pessoal. Haja pachorra! Senhor Director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra é preciso fazer alguma coisa para corrigir estes horários minimalistas e castradores. Acredito que será sensível a esta inusitada derrapagem dos tempos modernos em que o cego canta por uma moedinha.Publicado por António Vilhena às 11:27 AM | Comentários (0)
outubro 29, 2009
Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos.
Acaba de sair mais um livro da colecção “Fluir Perene” da autoria do Doutor José Ribeiro Ferreira. “Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos” é um livro que reúne a seiva da memória de três vultos notáveis que ensinaram na Faculdade de Letras e que, embora jubilados, continuam a exercer grande fascínio no seu discípulo e em muitas gerações de alunos. Estão todos vivos. Em homenagem emocionada Américo da Costa Ramalho, Walter de Sousa Medeiros e Maria Helena da Rocha Pereira expressaram na primeira pessoa a serenidade que o ensino da Cultura Clássica devolveu às suas vidas. Reencontrar a história de que somos feitos é sempre uma janela de liberdade que nos permite afastar algumas sombras que possam dificultar a compreensão do nosso passado. Para o Doutor Ribeiro Ferreira os três Mestres lembrados “apesar de significativas diferenças que os distinguem, têm também a uni-los muitos aspectos comuns: destaco a defesa dos estudos clássicos, a criação da Associação Portuguesa de Estudos Clássicos (APEC), a recepção de culturas e autores greco-latinos e o estudo do Humanismo e do Latim Renascentista”. Estes Mestres que eu não tive a sorte de encontrar continuam a viver na vida de outros discípulos que beberam do cálice da sua sabedoria, que souberam assumir o testemunho como uma linhagem incondicional. A transmissão dos seus conhecimentos resvala para além das obrigações académicas, é um modo de estar na vida, é uma paixão contaminada pela essa matriz greco-latina que nos eleva à dimensão de um humanismo cada vez mais necessário. O Doutor Américo da Costa Ramalho, o “Mestre que se vê no espelho dos outros”, natural de Almeida, doutorou-se em 1952 com a tese “Dipla Onomata no estilo de Aristófanes”. Bastaram poucos anos para em 1954 se tornar Professor Catedrático de Literatura Latina, com apenas trinta e três anos. Depois de uma experiência política menos simpática decide ir ensinar nos Estados Unidos, em New York. Foi Director da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra de 1970 até ao 25 de Abril de 1974, tendo decidido, depois da revolução, leccionar em algumas universidades brasileiras. Jubilou-se em 1991. O Doutor Walter de Sousa Medeiros, o “Mestre da voz e da postura”, nasceu em S.Miguel, nos Açores. Matricula-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1944, e por dificuldades materiais só em 1953 termina a licenciatura na Faculdade de Letras de Lisboa. Brilhante e genial, dotado de uma sensibilidade particular, manifesta a sua cumplicidade com o mundo literário, tendo chegado a vencer os Jogos Florais do Liceu Nacional Antero de Quental, em 1940. Em 1956 regressa a Coimbra como Assistente. Em 1961 defende a tese de Doutoramento sobre a obra de Hipónax: “Hipónax de Éfeso:1. Fragmentos dos Iambos”. Mas o que distingue o Mestre Walter Medeiros é a sua capacidade de comunicar, de encantar, de seduzir com a palavra certa, agarrando as plateias. Foi tocado pelos deuses. A palavra sempre foi a sua pedra de toque, a emoção gotejando em cada sílaba, como uma viagem compulsiva. A Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, o “paradigma que perdura”, nasceu no Porto. Licenciou-se (1947) em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Na sua cidade natal iniciou a sua vida académica (1948) no Centro de Estudos Humanísticos, antes de ir para a Universidade de Oxford investigar para o seu Doutoramento (1956), tendo sido a primeira mulher na história da Universidade de Coimbra. Apresentou provas para Professora Catedrática (1962). Quem conhece ou ouviu falar da Doutora Rocha Pereira sabe que o rigor e a exigência marcaram as suas relações. A eloquência e a segurança com que cativa quem a ouve lembra-me um episódio de Natália Correia, quando no final de uma conferência uma estudante lhe perguntou quanto tempo levou a escrever o texto da intervenção. Natália olhou-a e num ápice respondeu-lhe: “Menina, a vida toda”. Também a Doutora Rocha Pereira levou a vida toda a cultivar a sabedoria e o amor à Cultura Clássica. O preito do Doutor José Ribeiro Ferreira aos Mestres é um exercício de gratidão a que toda a sociedade se deve associar. A pedra cúbica leva muito tempo a esculpir, por isso, este livro, “Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos”, é o encontro feliz de quem trabalhou a cinzel a sabedoria para encontrar a luz.(in Diário de Coimbra)Publicado por António Vilhena às 08:15 PM | Comentários (0)
outubro 26, 2009
Na face da noite
Na face da noite uma coruja espalha o seu rufar exótico. Adensa-se o eco na amurada do silêncio, bruxuleante o voo rasga o breu entre acrobacias sedutoras. É a dança sensual da caçadora tacteando o céu onde repousam os mistérios do universo.
Publicado por António Vilhena às 09:18 PM | Comentários (0)
outubro 23, 2009
Pela mão vamos lá.
Pegou-lhe pela mão. Ela levantou-se a custo, olhou em frente e, com dificuldade, iniciou a marcha manca até desaparecer ao fundo da praia, onde ainda cheirava intensamente a maresia. A tarde ameaçava choviscar, soturnamente as pessoas passeavam pensativas, olhavam as montras com discreta curiosidade, caminhando indiferentes à calçada de pedra basáltica salpicada de branco. As pernas pediam-lhe paciência, a idade e a vida dura que enfrentou tiraram-lhe a força, agora tudo o que tem pressa pode esperar. Ver a vida com olhar paciente é como se recomeçasse a aprendizagem dos primeiros passos. Há sempre um retorno que nos concede o privilégio de encontrar um passado e revisitá-lo na galeria dos retratos, onde se passeiam os nomes e os lugares que se colaram pele.
Publicado por António Vilhena às 04:42 PM | Comentários (0)
outubro 22, 2009
O Amor é cruel
Impressionou-me a história de uma jovem Cisjordana que durante quatro dias rastejou por túneis até se juntar ao seu amor em Gaza. Esta notícia publicada no “Diário de Notícias”, de 18 de Outubro de 2009, com o título “O amor é cruel” vem confirmar aquilo que todos sabemos: o amor vence montanhas, ou seja, vence túneis e muito pó. O amor pode ser, também, uma manifestação de resistência, de coragem e de tudo ou de nada. Trata-se de um amor em tempo de guerra, de um amor capaz de vencer as fronteiras artificiais do ódio. Imagino os perigos que esta jovem correu até encontrar-se com o seu amado. Este, quando a viu sair do túnel onde a esperava, comentou que parecia que ela tinha saído do túmulo. O cenário de morte esteve sempre presente até ao derradeiro instante. Estes amantes escreveram uma das mais belas páginas da paixão. As trevas podem, assim, devolver a luz que alguns homens teimam em ocultar.
Publicado por António Vilhena às 03:11 PM | Comentários (3)
outubro 21, 2009
O véu da formiga
A encosta soalheira e seca era um dorso da natureza que permitia vislumbrar a planície, em volta tudo era infinito, infinitamente distante da pequenez do sonho. As sombras largas dos sobreiros acolhiam os animais à hora de mais calor, da sesta dos homens, dos zumbidos dos gafanhotos, das danças frenéticas das formigas de pernas gigantes que no carreiro se atarefavam. Às vezes, em compasso de espera recuperavam a ordem e lentificavam a marcha como se fossem numa procissão. A cerimónia tinha os seus rituais, era preciso esperar. Todas os convidados paravam. De repente, ao fundo do carreiro de sentido contrário, uma formiga, coberta por um véu, avançava lentamente. Percebe-se que algo de especial está para acontecer. Bastaram poucos segundos para uma multidão de formigas ensaiar uma dança de rabo, deixando no centro a formiga anfitriã. À hora do Sol a pique celebra-se a cerimónia de acasalamento da formiga alada. A descoberta foi acidental, eu estava lá a tentar descobrir no horizonte distante o mistério do universo, mas foi ali, junto aos meus pés, que a grande revelação aconteceu. Às vezes basta estar atento ao que parece comum para descobrirmos que o óbvio tem outros segredos.
Publicado por António Vilhena às 03:05 PM | Comentários (1)
outubro 20, 2009
A pele do jaguar
Onde se ocultam os aromas regressados do breu, a manhã é uma promessa vestida de tímida luz que ousa estremunhar de mansinho a pele do jaguar. Os ecos selvagens escalam as árvores e as aves ensaiam voos acrobáticos seduzindo a paisagem como um papiro de cores.
Publicado por António Vilhena às 11:03 AM | Comentários (0)
outubro 19, 2009
Reencontro
A ressurreição é para os católicos um regresso com sentido de fé, mas para um blogue é apenas um reencontro do seu autor com a vida das coisas comuns. Tanta ausência tem uma explicação. Durante os últimos meses entreguei-me de corpo e alma a uma causa que me absorvia dia e noite. Não sei viver a vida a metade, a paixão comanda-me as emoções e, por isso, a causa justificou esta ausência. Agora que lentamente regresso ao convívio dos livros, dos sons que sinalizam os cafés, dos jornais, dos amigos, eis-me inteiro neste reencontro. Este é “o primeiro dia do resto” de mim, nesta paragem de encontro obrigatório, onde as palavras ressoam para lá da intimidade do autor.
Nota: Pesquei esta bela imagem na net sem saber quem é o autor, a quem agradeço o bom gosto.
Publicado por António Vilhena às 05:33 PM | Comentários (2)
outubro 01, 2009
Tanto Alegre...
O poeta Manuel Alegre entrou na minha vida pela voz, uma espécie de eco trabalhado pela “natureza que não morre”. Na infância as palavras interditas percorriam a casa e soltavam-se em desabafos de esperança que um velho rádio misteriosamente debitava. Clandestinamente, aprendi palavras cujo significado redescobri nos poemas agora editados pela editora Dom Quixote. São dois volumes que reúnem vinte e cinco livros de 1960 a 2008. Estão lá todos os poemas onde aprendi a olhar os homens. Estão lá todas as utopias, as concretas e as outras, que me ensinaram a geometria dos heróis num palco efémero. Alegre é também o poeta da voz lunar que nos empresta a ilusão de escutar os deuses. Cada poema é uma cascata com gente dentro, uma paleta universal de silêncios que aconchega à sua Coimbra as rosas como um encantamento:”Não sei falar de Coimbra sem falar/ das rosas que por vezes/ se transformam em palavras”. Ele tem esse dom de nos colar à pele as pétalas, as guitarras, as guerras, a saudade, os homens de todos os tempos, as mulheres, as pitonisas do amor, as crianças e tudo o que o olhar do poeta elege como primordial. A sua vida é uma odisseia, mas a sua Ítaca é Coimbra. Tal como Ulisses os seus afectos regressam à mátria de Inês, carregados de memórias como uma constelação celeste salpicando acenos, abraços e beijos entre a multidão. Estava anunciado, sabia-se que vinha, que trazia palavras com sentido e uma alma enevoada para alimentar o mito. Ele é uma nuvem onde se passeiam os sonhos e os pergaminhos do viajante. À hora anunciada, uma voz solta o seu nome e o povo, sim o povo, procura-o sob os projectores. Lentamente o seu rosto distingue-se sob bandeiras e apoteóticos flashes de repórteres em busca do instante que só acontece neste século. De repente os seus braços erguem-se, sinto-o emocionado, acena, todo o seu corpo treme. O ex-candidato presidencial parece um caloiro ávido deste aroma onde as rosas e as mãos têm um simbolismo particular. Alegre é o homem-poema, o homem-palavra, o homem-voz que se abeira do silêncio para em comunhão cerzir a obra poética cinquentenária. O tempo era longo para quem esperava. Todos o esperavam. Uma voz colocada começa lentamente a ensaiar, glosando a trova do tempo que não passa, na versão circunstancial, uma espécie de passadeira metafórica por onde há-de passar o poeta de Abril. Ei-lo, ergue-se da cadeira, sobe o primeiro degrau e de mãos ao alto rasga a ovação com palavras tatuadas de vivências Coimbrãs. Vi-o subir o palco como se fosse a primeira vez, ia em busca da palavra certa que o ajudasse a misturar-se na multidão, a soltar-se no embaraço que a circunstância lhe impunha. Era um homem vestido de emoção, a lágrima espreitou-lhe no olho esquerdo, mas o caminheiro destas andanças olhou em volta e, seguro do instante, reencontrou a marcha nos nomes que sempre o admiraram. Lá estava o antigo ministro António Arnaut com quem trocou um longo abraço e algumas palavras sussurradas, como se celebrassem o reencontro da memória, esse prodígio que nos perpetua para lá de todas as guerras. Confesso que fiquei com pele de galinha, um rio de lágrimas correu dentro de mim. O momento era histórico, ali estava a voz com que a minha biblioteca sonora soletrou: a “Trova do vento que passa”. A sua imagem no palco irradiava uma luz única, as verdades são mais verdadeiras quando Alegre as diz, quando a sua voz coloquial é uma melopeia inquieta. Os poetas têm esse sortilégio de misturarem as noites na filigrana das estrelas. Todos os dias a luz da sua obra poética revela o solstício das marés onde naufragam os amantes de causas. Como ele disse, o “cravo na lapela nas comemorações do 25 de Abril” faz toda a diferença entre ele e Cavaco Silva. Na hora da verdade o povo distingue entre o silêncio o fulgor da razão. (Publicado in Diário de Coimbra)Publicado por António Vilhena às 11:14 PM | Comentários (0)