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outubro 21, 2009
O véu da formiga
A encosta soalheira e seca era um dorso da natureza que permitia vislumbrar a planície, em volta tudo era infinito, infinitamente distante da pequenez do sonho. As sombras largas dos sobreiros acolhiam os animais à hora de mais calor, da sesta dos homens, dos zumbidos dos gafanhotos, das danças frenéticas das formigas de pernas gigantes que no carreiro se atarefavam. Às vezes, em compasso de espera recuperavam a ordem e lentificavam a marcha como se fossem numa procissão. A cerimónia tinha os seus rituais, era preciso esperar. Todas os convidados paravam. De repente, ao fundo do carreiro de sentido contrário, uma formiga, coberta por um véu, avançava lentamente. Percebe-se que algo de especial está para acontecer. Bastaram poucos segundos para uma multidão de formigas ensaiar uma dança de rabo, deixando no centro a formiga anfitriã. À hora do Sol a pique celebra-se a cerimónia de acasalamento da formiga alada. A descoberta foi acidental, eu estava lá a tentar descobrir no horizonte distante o mistério do universo, mas foi ali, junto aos meus pés, que a grande revelação aconteceu. Às vezes basta estar atento ao que parece comum para descobrirmos que o óbvio tem outros segredos.
Publicado por António Vilhena às outubro 21, 2009 03:05 PM
Comentários
Texto sensual e metafórico.
Saúdo intensamente o regresso.
Juvenal Santiago
Publicado por: joana g. às outubro 22, 2009 12:24 AM