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outubro 01, 2009
Tanto Alegre...
O poeta Manuel Alegre entrou na minha vida pela voz, uma espécie de eco trabalhado pela “natureza que não morre”. Na infância as palavras interditas percorriam a casa e soltavam-se em desabafos de esperança que um velho rádio misteriosamente debitava. Clandestinamente, aprendi palavras cujo significado redescobri nos poemas agora editados pela editora Dom Quixote. São dois volumes que reúnem vinte e cinco livros de 1960 a 2008. Estão lá todos os poemas onde aprendi a olhar os homens. Estão lá todas as utopias, as concretas e as outras, que me ensinaram a geometria dos heróis num palco efémero. Alegre é também o poeta da voz lunar que nos empresta a ilusão de escutar os deuses. Cada poema é uma cascata com gente dentro, uma paleta universal de silêncios que aconchega à sua Coimbra as rosas como um encantamento:”Não sei falar de Coimbra sem falar/ das rosas que por vezes/ se transformam em palavras”. Ele tem esse dom de nos colar à pele as pétalas, as guitarras, as guerras, a saudade, os homens de todos os tempos, as mulheres, as pitonisas do amor, as crianças e tudo o que o olhar do poeta elege como primordial. A sua vida é uma odisseia, mas a sua Ítaca é Coimbra. Tal como Ulisses os seus afectos regressam à mátria de Inês, carregados de memórias como uma constelação celeste salpicando acenos, abraços e beijos entre a multidão. Estava anunciado, sabia-se que vinha, que trazia palavras com sentido e uma alma enevoada para alimentar o mito. Ele é uma nuvem onde se passeiam os sonhos e os pergaminhos do viajante. À hora anunciada, uma voz solta o seu nome e o povo, sim o povo, procura-o sob os projectores. Lentamente o seu rosto distingue-se sob bandeiras e apoteóticos flashes de repórteres em busca do instante que só acontece neste século. De repente os seus braços erguem-se, sinto-o emocionado, acena, todo o seu corpo treme. O ex-candidato presidencial parece um caloiro ávido deste aroma onde as rosas e as mãos têm um simbolismo particular. Alegre é o homem-poema, o homem-palavra, o homem-voz que se abeira do silêncio para em comunhão cerzir a obra poética cinquentenária. O tempo era longo para quem esperava. Todos o esperavam. Uma voz colocada começa lentamente a ensaiar, glosando a trova do tempo que não passa, na versão circunstancial, uma espécie de passadeira metafórica por onde há-de passar o poeta de Abril. Ei-lo, ergue-se da cadeira, sobe o primeiro degrau e de mãos ao alto rasga a ovação com palavras tatuadas de vivências Coimbrãs. Vi-o subir o palco como se fosse a primeira vez, ia em busca da palavra certa que o ajudasse a misturar-se na multidão, a soltar-se no embaraço que a circunstância lhe impunha. Era um homem vestido de emoção, a lágrima espreitou-lhe no olho esquerdo, mas o caminheiro destas andanças olhou em volta e, seguro do instante, reencontrou a marcha nos nomes que sempre o admiraram. Lá estava o antigo ministro António Arnaut com quem trocou um longo abraço e algumas palavras sussurradas, como se celebrassem o reencontro da memória, esse prodígio que nos perpetua para lá de todas as guerras. Confesso que fiquei com pele de galinha, um rio de lágrimas correu dentro de mim. O momento era histórico, ali estava a voz com que a minha biblioteca sonora soletrou: a “Trova do vento que passa”. A sua imagem no palco irradiava uma luz única, as verdades são mais verdadeiras quando Alegre as diz, quando a sua voz coloquial é uma melopeia inquieta. Os poetas têm esse sortilégio de misturarem as noites na filigrana das estrelas. Todos os dias a luz da sua obra poética revela o solstício das marés onde naufragam os amantes de causas. Como ele disse, o “cravo na lapela nas comemorações do 25 de Abril” faz toda a diferença entre ele e Cavaco Silva. Na hora da verdade o povo distingue entre o silêncio o fulgor da razão. (Publicado in Diário de Coimbra)Publicado por António Vilhena às outubro 1, 2009 11:14 PM