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outubro 29, 2009
Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos.
Acaba de sair mais um livro da colecção “Fluir Perene” da autoria do Doutor José Ribeiro Ferreira. “Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos” é um livro que reúne a seiva da memória de três vultos notáveis que ensinaram na Faculdade de Letras e que, embora jubilados, continuam a exercer grande fascínio no seu discípulo e em muitas gerações de alunos. Estão todos vivos. Em homenagem emocionada Américo da Costa Ramalho, Walter de Sousa Medeiros e Maria Helena da Rocha Pereira expressaram na primeira pessoa a serenidade que o ensino da Cultura Clássica devolveu às suas vidas. Reencontrar a história de que somos feitos é sempre uma janela de liberdade que nos permite afastar algumas sombras que possam dificultar a compreensão do nosso passado. Para o Doutor Ribeiro Ferreira os três Mestres lembrados “apesar de significativas diferenças que os distinguem, têm também a uni-los muitos aspectos comuns: destaco a defesa dos estudos clássicos, a criação da Associação Portuguesa de Estudos Clássicos (APEC), a recepção de culturas e autores greco-latinos e o estudo do Humanismo e do Latim Renascentista”. Estes Mestres que eu não tive a sorte de encontrar continuam a viver na vida de outros discípulos que beberam do cálice da sua sabedoria, que souberam assumir o testemunho como uma linhagem incondicional. A transmissão dos seus conhecimentos resvala para além das obrigações académicas, é um modo de estar na vida, é uma paixão contaminada pela essa matriz greco-latina que nos eleva à dimensão de um humanismo cada vez mais necessário. O Doutor Américo da Costa Ramalho, o “Mestre que se vê no espelho dos outros”, natural de Almeida, doutorou-se em 1952 com a tese “Dipla Onomata no estilo de Aristófanes”. Bastaram poucos anos para em 1954 se tornar Professor Catedrático de Literatura Latina, com apenas trinta e três anos. Depois de uma experiência política menos simpática decide ir ensinar nos Estados Unidos, em New York. Foi Director da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra de 1970 até ao 25 de Abril de 1974, tendo decidido, depois da revolução, leccionar em algumas universidades brasileiras. Jubilou-se em 1991. O Doutor Walter de Sousa Medeiros, o “Mestre da voz e da postura”, nasceu em S.Miguel, nos Açores. Matricula-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1944, e por dificuldades materiais só em 1953 termina a licenciatura na Faculdade de Letras de Lisboa. Brilhante e genial, dotado de uma sensibilidade particular, manifesta a sua cumplicidade com o mundo literário, tendo chegado a vencer os Jogos Florais do Liceu Nacional Antero de Quental, em 1940. Em 1956 regressa a Coimbra como Assistente. Em 1961 defende a tese de Doutoramento sobre a obra de Hipónax: “Hipónax de Éfeso:1. Fragmentos dos Iambos”. Mas o que distingue o Mestre Walter Medeiros é a sua capacidade de comunicar, de encantar, de seduzir com a palavra certa, agarrando as plateias. Foi tocado pelos deuses. A palavra sempre foi a sua pedra de toque, a emoção gotejando em cada sílaba, como uma viagem compulsiva. A Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, o “paradigma que perdura”, nasceu no Porto. Licenciou-se (1947) em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Na sua cidade natal iniciou a sua vida académica (1948) no Centro de Estudos Humanísticos, antes de ir para a Universidade de Oxford investigar para o seu Doutoramento (1956), tendo sido a primeira mulher na história da Universidade de Coimbra. Apresentou provas para Professora Catedrática (1962). Quem conhece ou ouviu falar da Doutora Rocha Pereira sabe que o rigor e a exigência marcaram as suas relações. A eloquência e a segurança com que cativa quem a ouve lembra-me um episódio de Natália Correia, quando no final de uma conferência uma estudante lhe perguntou quanto tempo levou a escrever o texto da intervenção. Natália olhou-a e num ápice respondeu-lhe: “Menina, a vida toda”. Também a Doutora Rocha Pereira levou a vida toda a cultivar a sabedoria e o amor à Cultura Clássica. O preito do Doutor José Ribeiro Ferreira aos Mestres é um exercício de gratidão a que toda a sociedade se deve associar. A pedra cúbica leva muito tempo a esculpir, por isso, este livro, “Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos”, é o encontro feliz de quem trabalhou a cinzel a sabedoria para encontrar a luz.(in Diário de Coimbra)Publicado por António Vilhena às outubro 29, 2009 08:15 PM