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janeiro 07, 2010
As ruas são de todos
Das ruas chegam sinais inequívocos de pobreza. Há cada vez mais arrumadores e crianças usadas como pedintes. Trata-se de uma constatação, não me disseram, não li em jornais, nem consultei as estatísticas. Não era necessário, os casos entram pelos olhos, as suas mãos estendidas são silêncios desesperados em busca da sensibilidade alheia. Há nos seus olhares a impiedosa ternura de quem se sente na margem, mesmo ao lado, onde corre o rio que banha os outros que têm pressa, que têm as vidas ocupadas, que têm as agendas cheias de compromissos sociais, que têm de ir fazer intriga nos empregos, que têm de ir com o cão ao veterenário, que têm de tirar a borbulha e que têm calos nos sentidos. As luzes e os néons das cidades não iluminam as silhuetas deste excluídos que se afeiçoam às ombreiras das portas enquanto esperam a misericórdia ou a solidariedade. À saída das igrejas, depois das missas, acantonam-se “visitantes de escadas” esperançados que a palavra de Deus sensibilize os crentes e, assim, consigam algum pecúlio reconfortante. O Inverno rigoroso corre o risco de se transformar numa metáfora social de consequências devastadoras. Urge, por isso, disponibilizar todos os recursos possíveis para acudir aos mais vulneráveis, aos que não têm voz nem corporações. A rua é, normalmente, o seu palco, nela exercem o único poder disponível: esperar que a sua dor contagie os que passam, que a sua esperança seja alimentada, que a circunstância seja efémera. Durante o mês de Dezembro conheci um caso que me impressionou. Vou chamar-lhe Miguel para defender o seu anonimato. A manhã estava muito fria e o Miguel, que se encontrava na companhia de uma menina de quatro anos junto a uma máquina para pagar o estacionamento, pedia esmola. As mãos da menina estavam roxas. Perguntei-lhe por que tinha trazido a menina, uma vez que estava tanto frio. A resposta incomodou-me. Miguel disse-me que tinha perdido o emprego, que o banco lhe tinha confiscado a casa, que a mulher os abandonou para ir para a Suíça, que agora não tem dinheiro, nem casa, e que a filha quer ajudá-lo. Disse-me, também, que vai conseguir ultrapassar este momento mau. Fiquei agarrado ao chão. Enquanto ele me contava esta história a menina segurava nas mãos uma latinha com vinte cêntimos lá dentro. A menina chama-se Bruna (nome igualmente falso), tinha olhos azuis, o cabelo sujo, as mãos gretadas do frio e uma tristeza que lhe escorria pelo corpo todo. A Bruna era muito bonita mas a rua era o seu jardim de infância, a sua casa, o seu mundo. Dependia de quem se condoesse. Telefonei a um amigo de uma empresa de construção, contei-lhe a história. Nessa tarde o Miguel foi à empresa para uma entrevista. Soube ao final da noite que a empresa lhe tinha oferecido um emprego. O empresário emprestou-lhe, também, um apartamento, por um ano, enquanto o Miguel não tem condições de arrendar uma casa. Tenho a certeza que esta foi a melhor prenda de Natal para o Miguel e a Bruna. E para mim, também. Agora, quando passo por aquele sítio onde se paga o estacionamento, não vejo lá a Bruna, mas lembro-me sempre dela. Recordo que o pai me disse que ela o queria ajudar. E ajudou. Confesso que foi ela que me agitou o sangue, que me baldeou a revolta, que me lembrou os “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes. No momento em que escrevo este texto sei que a Bruna voltou a frequentar um infantário e a tomar banho. Ao empresário, que tornou possível à Bruna voltar a sonhar com o Pai Natal, um eterno abraço. Infelizmente, há muitas Brunas. (in Diário de Coimbra)Publicado por António Vilhena às janeiro 7, 2010 11:09 AM
Comentários
Ainda bem que te encontro, Vilhena!
Lancei hoje no Face uma nota com um texto teu, do livro A ETERNA PAIXÂO DE NUNCA ESTAR CONTENTE.
Claro que ainda guardo esse livro, autografádo por ti tb. Gostava que passasses pela minha página no face, para veres os comentários que te tecem.
Procura por Isabel Castanho ;)
beijinhos
Publicado por: Isabel Pinto às janeiro 10, 2010 11:55 PM
O que nos faz maiores ou menores é isso, esses gestos, essas atitudes que vem do coração que cada um possui dentro de si.
Nem todas as prendas de Natal se adquirem em centros comerciais, nem todas estão junto ao pinheiro de Natal e "Natal deveria ser todos os dias".
cmps
Publicado por: maria pereira às janeiro 9, 2010 11:21 AM