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<title>AS FÚRIAS</title>
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<tagline>A memória é o que fica depois da espuma dos dias.
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<copyright>Copyright (c) 2009, António Vilhena</copyright>
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<title>Os muros também se abatem.</title>
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<![CDATA[<img src="http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:CMe-SS_TdIzs0M:http://www.yaf.org/uploadedImages/Blogs/berlinwall1.jpg">O “Muro da Vergonha” é uma memória triste. Aqueles que não viveram na pele a privação da liberdade, a separação da família, o luto da sua rua, do seu bairro, dos seus amigos, nunca poderão sentir da mesma maneira as comemorações dos vinte anos da queda do Muro de Berlim. Pode-se imaginar, pode-se comungar o espírito e a revolta, mas nunca como um Berlinense. Tal como o 25 de Abril de 1974 não pode ser comemorado por um francês, um alemão ou um japonês da mesma maneira que um português que viveu sob a ditadura de Salazar, que sentiu  na carne as garras  fascistas.  A efeméride a que o mundo se associou encerra múltiplos significados. A reunificação  alemã é mais do que o reencontro com a história, é a evocação da matriz de uma Europa assente nos valores da liberdade e da tolerância. As sequelas do muro permanecerão, ainda, durante muito tempo na vida dos alemães como um tempo de vergonha e de medo, como uma estranha ocupação. Mas o “muro” ocupou, também, o imaginário civilizacional. Durante quarenta anos foi um obelisco omnipresente  nas fronteiras do livre pensamento, serviu para dividir o mundo entre dois blocos: o ocidente e o leste, ou seja, o mundo livre e o mundo da ditadura do proletariado.  Mas quantos muros existem ainda espalhados pelo planeta? A luta pela liberdade não pode ser separada de outros direitos. Não se é livre quando não se tem trabalho, quando não se tem habitação, quando não se pode votar em consciência. As fronteiras do Ser são muitas vezes ocultadas pela máscara  dos interesses. O mundo está cheio de pobres, de gente sem voz, que não tem força para lutar pelos seus direitos, que não tem sindicatos, que não tem corporações,  que não tem acesso à saúde, que não tem saneamento básico, que não tem dinheiro para mandar os filhos à escola, que não tem esperança. Esta realidade cerca-nos como um muro que, também, nos deve envergonhar. Obama já percebeu que há uma América dos privilégios e uma América dos sem-abrigo, dos doentes, dos desempregados, dos excluídos, dos sem-nome. É por estes que devemos colocar o melhor do nosso esforço para que estes  “muros” não inibam ninguém dos seus direitos.  
Agora que o “Tratado de Lisboa” foi, finalmente, ratificado abre-se um capital de esperança para a União. A Europa pode e deve ser uma voz no mundo da diplomacia internacional capaz de fazer a diferença na defesa dos valores do Homem. A construção europeia é uma longa caminhada, à semelhança de uma catedral, as pedras levam o seu tempo a esculpir, mas o molde carece de um instrumento principal que há-de consolidar o templo de Jean Monnet: a inteligência e a tolerância. A construção da casa que Jean Monnet imaginou tinha na memória descritiva uma Europa sem muros, como metáfora concreta do pensamento universal onde cada homem tem direito a exercer o livre arbítrio numa relação de vizinhança sem descriminações. Os muros depois do muro permanecem dentro de nós.(<em>in</em> Diário de Coimbra)

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<title>O Muro</title>
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<summary type="text/plain">Passaram vinte anos sobre o derrube do muro de Berlim. Quantos anos serão necessários para reduzir a pó as cicatrizes desse passado ignominioso que esquartejou um povo e uma Europa? Ainda que o muro já não exista fisicamente, ele permanece...</summary>
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<![CDATA[<img src="http://t0.gstatic.com/images?q=tbn:OwK4Y0rzYkKq0M:http://coisasparavoceodiar.files.wordpress.com/2009/01/muro-de-berlim.jpg">Passaram vinte anos sobre o derrube do muro de  Berlim. Quantos anos serão necessários para reduzir a pó as cicatrizes desse passado ignominioso que esquartejou um povo e uma Europa? Ainda que o muro já não exista fisicamente, ele permanece nas vidas daqueles que foram vítimas da separação. Muitas famílias ficaram amputadas, os afectos foram congelados por uma ditadura stalinista que sem escrúpulos acantonou um povo atrás de um muro de vergonha. Estas comemorações têm duas faces: de um lado os saudosistas que lacrimejam o poder perdido, do outro,  os amantes da liberdade que içam os valores da tolerância. Esta efeméride serve, também, para lembrar que persistem, ainda, outros muros reais que são urge derrubar. A humanidade precisa de reflectir sobre a sua história para continuar a pugnar pelos liberdade como expressão da tolerância máxima e da solidariedade entre as diferenças]]>

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<title>Jardim de Acasos</title>
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<summary type="text/plain">Misturava as folhas para construir um jardim de acasos. Coleccionava folhas, cuidava delas como a melhor especiaria, envernizava-as e, depois, com táctil sensibilidade colocava-as numa parede da sala de aula. A paciência era a sua grande qualidade. Os seus alunos...</summary>
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<![CDATA[<img src="http://www.philipkaufman.com/pics/LenaOlinTheUnbereableLightnessofBeing.jpg">Misturava as folhas para construir um jardim de acasos. Coleccionava folhas, cuidava delas como a melhor especiaria, envernizava-as e, depois, com táctil sensibilidade colocava-as numa parede da sala de aula. A paciência era a sua grande qualidade. Os seus alunos viam crescer aquela espécie de "folhário", trepadeira com arte, que se espalha em todas as direcções, em busca de um sentido para o acaso. Às vezes, a desordem confere uma estética inefável que nos envolve nas baínhas e no galope da expansão.
Habituados a olhar a natureza com espanto e intimidade, os alunos associaram cada folha a uma palavra que despertasse a angústia de cada um. Ao longo dos dias seguintes, a espiral criativa deu lugar a um texto pós-modermo, cerzido com invisíveis janelas de luz, acessíveis apenas a quem foi capaz de se entregar à cumplicidade das emoções.Frente-a-frente duas paredes: uma de folhas, outra de palavras. Assim nasceu o Jardim de Acasos, onde as folhas e as palavras se enamoram à distância de uma sedução.  ]]>

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<title>A crise de horas na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra</title>
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A redução do horário disponível para os utilizadores da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra tem sofrido alterações bastante gravosas desde há um ano. Dantes a Biblioteca fechava às 23horas, agora fecha às 22horas. Durante o mês de Agosto fechava às 17h30, horário que se prolongou durante o mês de Setembro. Hoje, dia 30 de Outubro de 2009, está um comunicado afixado que diz que a Biblioteca encerra às 17h30 por razões de pessoal. Haja pachorra!

Senhor Director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra é preciso fazer alguma coisa para corrigir estes horários minimalistas e castradores. Acredito que será sensível a esta inusitada derrapagem dos tempos modernos em que o cego canta por uma moedinha.

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<title>Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos.</title>
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<summary type="text/plain"> Acaba de sair mais um livro da colecção “Fluir Perene” da autoria do Doutor José Ribeiro Ferreira. “Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos” é um livro que reúne a seiva da memória de três vultos notáveis que ensinaram na...</summary>
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Acaba de sair mais um livro da colecção “Fluir Perene” da autoria do Doutor José Ribeiro Ferreira. “Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos” é um livro que reúne a seiva da memória de três vultos notáveis que ensinaram na Faculdade de Letras e que, embora jubilados, continuam a exercer grande fascínio no seu discípulo e em muitas gerações de alunos. Estão todos vivos. Em homenagem emocionada Américo da Costa Ramalho, Walter de Sousa Medeiros e Maria Helena da Rocha Pereira expressaram na primeira pessoa a serenidade que o ensino da Cultura Clássica devolveu às suas vidas. Reencontrar a história de que somos feitos é sempre uma janela de liberdade que nos permite afastar algumas sombras que possam dificultar a compreensão do nosso passado. Para o Doutor Ribeiro Ferreira os três Mestres lembrados  “apesar de significativas diferenças que os distinguem, têm também a uni-los muitos aspectos comuns: destaco a defesa dos estudos clássicos, a criação da Associação Portuguesa de Estudos Clássicos (APEC), a recepção de culturas e autores greco-latinos e o estudo do Humanismo e do Latim Renascentista”.
Estes Mestres que eu não tive a sorte de encontrar continuam a viver na vida de outros discípulos que beberam do cálice da sua sabedoria, que souberam assumir o testemunho como uma linhagem incondicional. A transmissão dos seus conhecimentos resvala para além das obrigações académicas, é um modo de estar na vida, é uma paixão contaminada pela essa matriz greco-latina que nos eleva à dimensão de um humanismo  cada vez mais necessário. 
O Doutor Américo da Costa Ramalho, o “Mestre que se vê no espelho dos outros”, natural de Almeida, doutorou-se em 1952 com a tese “Dipla Onomata no estilo de Aristófanes”. Bastaram poucos anos para em 1954 se tornar Professor Catedrático de Literatura Latina, com apenas trinta e três anos. Depois de uma experiência política menos simpática  decide ir ensinar nos Estados Unidos, em New York. Foi Director  da Faculdade de Letras  da Universidade de Coimbra de 1970 até ao 25 de Abril de 1974, tendo decidido, depois da revolução, leccionar em algumas universidades brasileiras. Jubilou-se em 1991. 
O Doutor Walter de Sousa Medeiros, o “Mestre da voz e da postura”, nasceu em S.Miguel, nos Açores. Matricula-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1944, e por dificuldades materiais só em 1953 termina a licenciatura na Faculdade de Letras de Lisboa. Brilhante e genial, dotado de uma sensibilidade particular, manifesta a sua cumplicidade com o mundo literário, tendo chegado a vencer os Jogos Florais do Liceu Nacional Antero de Quental, em 1940. Em 1956 regressa a Coimbra como Assistente. Em 1961 defende a tese de Doutoramento sobre a obra de Hipónax: “Hipónax de Éfeso:1. Fragmentos  dos Iambos”. Mas o que distingue o Mestre Walter Medeiros é a sua capacidade de comunicar, de encantar, de seduzir com a palavra certa, agarrando as plateias. Foi tocado pelos deuses. A palavra sempre foi a sua pedra de toque, a emoção gotejando em cada sílaba, como uma viagem compulsiva.
A Doutora Maria  Helena da Rocha Pereira, o “paradigma que perdura”, nasceu no Porto. Licenciou-se (1947) em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Na sua cidade natal iniciou a sua vida académica (1948) no Centro de Estudos Humanísticos, antes de ir para a Universidade de Oxford investigar para o seu Doutoramento (1956), tendo sido a primeira mulher na história da Universidade de Coimbra. Apresentou provas para Professora Catedrática (1962). Quem conhece ou ouviu falar da Doutora Rocha Pereira sabe que o rigor e a exigência marcaram as suas relações. A eloquência e a segurança com que cativa quem a ouve lembra-me um episódio de Natália Correia, quando no final de uma conferência uma estudante lhe perguntou quanto tempo levou a escrever o texto da intervenção. Natália olhou-a e num ápice respondeu-lhe: “Menina, a vida toda”. Também a Doutora Rocha Pereira levou a vida toda a cultivar a sabedoria e o amor à Cultura Clássica.
O preito do Doutor José Ribeiro Ferreira aos Mestres é um exercício de gratidão a que toda a sociedade se deve associar.  A pedra cúbica leva muito tempo a esculpir, por isso, este livro, “Três Mestres, Três Lições, Três Caminhos”, é o encontro feliz de quem trabalhou a cinzel a sabedoria para encontrar a luz.(<em>in</em> Diário de Coimbra)
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<title>Na face da noite</title>
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<summary type="text/plain">Na face da noite uma coruja espalha o seu rufar exótico. Adensa-se o eco na amurada do silêncio, bruxuleante o voo rasga o breu entre acrobacias sedutoras. É a dança sensual da caçadora tacteando o céu onde repousam os mistérios...</summary>
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<![CDATA[<img src="http://t1.gstatic.com/images?q=tbn:qmqZJN3EFBv7kM:http://farm2.static.flickr.com/1367/676609670_351fdde783_b.jpg">Na face da noite uma coruja espalha o seu rufar exótico. Adensa-se o eco na amurada do silêncio, bruxuleante o voo rasga o breu entre acrobacias sedutoras. É a dança sensual da caçadora tacteando o céu onde repousam os mistérios do universo.]]>

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<title>Pela mão vamos lá.</title>
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<modified>2009-10-23T17:23:52Z</modified>
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<summary type="text/plain">Pegou-lhe pela mão. Ela levantou-se a custo, olhou em frente e, com dificuldade, iniciou a marcha manca até desaparecer ao fundo da praia, onde ainda cheirava intensamente a maresia. A tarde ameaçava choviscar, soturnamente as pessoas passeavam pensativas, olhavam as...</summary>
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<![CDATA[<img src="http://t0.gstatic.com/images?q=tbn:OHIIBfrSXuSVQM:http://alem.files.wordpress.com/2008/03/maos-dadas.jpg">Pegou-lhe pela mão. Ela levantou-se a custo, olhou em frente e, com dificuldade, iniciou a marcha manca até desaparecer ao fundo da praia, onde ainda cheirava intensamente a maresia. A tarde ameaçava choviscar, soturnamente as pessoas passeavam pensativas, olhavam as montras com discreta curiosidade, caminhando indiferentes à calçada de pedra basáltica salpicada de branco. As pernas pediam-lhe paciência, a idade e a vida dura que enfrentou tiraram-lhe a força, agora tudo o que tem pressa pode esperar. Ver a vida com olhar paciente é como se recomeçasse a aprendizagem dos primeiros passos. Há sempre um retorno que nos concede o privilégio de encontrar um passado e revisitá-lo na galeria dos retratos, onde se passeiam os nomes e os lugares que se colaram pele.]]>

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<title>O Amor é cruel</title>
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<summary type="text/plain">Impressionou-me a história de uma jovem Cisjordana que durante quatro dias rastejou por túneis até se juntar ao seu amor em Gaza. Esta notícia publicada no “Diário de Notícias”, de 18 de Outubro de 2009, com o título “O amor...</summary>
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<![CDATA[<img src="http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:4U3u_y3_gK2j4M:http://static.blogstorage.hi-pi.com/photos/desenhos.arteblog.com.br/images/gd/1202244758/Mulher-Arabe.jpg">Impressionou-me a história de uma jovem Cisjordana que durante quatro dias rastejou por túneis até se juntar ao seu amor em Gaza. Esta notícia publicada no “Diário de Notícias”, de 18 de Outubro de 2009, com o título “O amor é cruel” vem confirmar aquilo que todos sabemos: o amor vence montanhas, ou seja, vence túneis e muito pó. O amor pode ser, também, uma manifestação de resistência, de coragem e de tudo ou de nada. Trata-se de um amor em tempo de guerra, de um amor capaz de vencer as fronteiras artificiais do ódio. Imagino os perigos que esta jovem correu até encontrar-se com o seu amado. Este, quando a viu sair do túnel onde a esperava, comentou que parecia que ela tinha saído do túmulo. O cenário de morte esteve sempre presente até ao derradeiro instante. Estes amantes escreveram uma das mais belas páginas da paixão. As trevas podem, assim, devolver a luz que alguns homens teimam em ocultar.]]>

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<title>O véu da formiga</title>
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<modified>2009-10-21T15:13:19Z</modified>
<issued>2009-10-21T15:05:41Z</issued>
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<summary type="text/plain">A encosta soalheira e seca era um dorso da natureza que permitia vislumbrar a planície, em volta tudo era infinito, infinitamente distante da pequenez do sonho. As sombras largas dos sobreiros acolhiam os animais à hora de mais calor, da...</summary>
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<![CDATA[<img src="http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:bVDvqT2_tN0KmM:http://palavrassussurradas.files.wordpress.com/2008/03/aformiga.jpg">A encosta soalheira e seca era um dorso da natureza que permitia vislumbrar a planície, em volta tudo era infinito, infinitamente distante da pequenez do sonho. As sombras largas dos sobreiros acolhiam os animais à hora de mais calor, da sesta dos homens, dos zumbidos dos gafanhotos, das danças frenéticas das formigas de pernas gigantes que no carreiro se atarefavam. Às vezes, em compasso de espera recuperavam a ordem e lentificavam a marcha como se fossem numa procissão. A cerimónia tinha os seus rituais, era preciso esperar. Todas os convidados paravam. De repente, ao fundo do carreiro de sentido contrário, uma formiga, coberta por um véu, avançava lentamente. Percebe-se que algo de especial está para acontecer. Bastaram poucos segundos para uma multidão de formigas ensaiar uma dança de rabo, deixando no centro a formiga anfitriã. À hora do Sol a pique celebra-se a cerimónia de acasalamento da formiga alada. A descoberta foi acidental, eu estava lá a tentar descobrir no horizonte distante o mistério do universo, mas foi ali, junto aos meus pés, que a grande revelação aconteceu. Às vezes basta estar atento ao que parece comum para descobrirmos que o óbvio tem outros segredos.]]>

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<title>A pele do jaguar</title>
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<issued>2009-10-20T11:03:22Z</issued>
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<summary type="text/plain"> Onde se ocultam os aromas regressados do breu, a manhã é uma promessa vestida de tímida luz que ousa estremunhar de mansinho a pele do jaguar. Os ecos selvagens escalam as árvores e as aves ensaiam voos acrobáticos seduzindo...</summary>
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<![CDATA[<img src="http://t0.gstatic.com/images?q=tbn:8Xqkf6RHwWQxJM:http://beautyofnature2009.files.wordpress.com/2009/02/jaguar-42.jpg"> Onde se ocultam os aromas regressados do breu, a manhã é uma promessa vestida de tímida luz que ousa estremunhar de mansinho a pele do jaguar. Os ecos selvagens escalam as árvores e as aves ensaiam voos acrobáticos  seduzindo a paisagem como um papiro de cores. ]]>

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<title>Reencontro</title>
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<summary type="text/plain"> A ressurreição é para os católicos um regresso com sentido de fé, mas para um blogue é apenas um reencontro do seu autor com a vida das coisas comuns. Tanta ausência tem uma explicação. Durante os últimos meses entreguei-me...</summary>
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<![CDATA[<img src="http://1.bp.blogspot.com/_CldaScYFZlU/SeJzjVi7IYI/AAAAAAAAAo0/FcfjboeE4KM/s400/amizade.jpg">


A ressurreição é para os católicos um regresso com sentido de fé, mas para um blogue é apenas um reencontro do seu autor  com a vida das coisas comuns. Tanta ausência tem uma explicação. Durante os últimos meses entreguei-me de corpo e alma a uma causa que me absorvia dia e noite.  Não sei viver a vida a metade, a paixão comanda-me as emoções e, por isso, a causa justificou esta ausência. Agora que lentamente regresso ao convívio dos livros, dos sons que sinalizam os cafés, dos jornais, dos amigos, eis-me inteiro neste reencontro. Este é “o primeiro dia do resto” de mim, nesta paragem de encontro obrigatório, onde as palavras ressoam para lá da intimidade do autor.
Nota: <em>Pesquei esta bela imagem na net sem saber quem é o autor, a quem agradeço o bom gosto.</em>]]>

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<title>Tanto Alegre...</title>
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<name>António Vilhena</name>

<email>amvilhena@hotmail.com</email>
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<![CDATA[O poeta Manuel Alegre entrou na minha vida pela voz, uma espécie de eco trabalhado pela “natureza que não morre”. Na infância as palavras interditas percorriam a casa e soltavam-se em desabafos de esperança que um velho rádio misteriosamente debitava. Clandestinamente, aprendi palavras cujo significado redescobri nos poemas agora editados pela editora Dom Quixote. São dois volumes que reúnem vinte e cinco livros de 1960 a 2008. Estão lá todos os poemas onde aprendi a olhar os homens. Estão lá todas as utopias, as concretas e as outras, que me ensinaram a geometria dos heróis num palco efémero. Alegre é também o poeta da voz lunar que nos empresta a ilusão de escutar os deuses. Cada poema é uma cascata com gente dentro, uma paleta universal de silêncios que aconchega à sua Coimbra as rosas como um encantamento:”Não sei falar de Coimbra sem falar/ das rosas que por vezes/ se transformam em palavras”. Ele tem esse dom de nos colar à pele as pétalas, as guitarras, as guerras, a saudade, os homens de todos os tempos, as mulheres, as pitonisas do amor, as crianças e tudo o que o olhar do poeta elege como primordial. A sua vida é uma odisseia, mas a sua Ítaca é Coimbra. Tal como Ulisses os seus afectos regressam à mátria de Inês, carregados de memórias como uma constelação celeste salpicando acenos, abraços e beijos entre a multidão. Estava anunciado, sabia-se que vinha, que trazia palavras com sentido e uma alma enevoada para alimentar o mito. Ele é uma nuvem onde se passeiam os sonhos e os pergaminhos do viajante. À hora anunciada, uma voz solta o seu nome e o povo, sim o povo, procura-o sob os projectores. Lentamente o seu rosto distingue-se sob bandeiras e apoteóticos flashes de repórteres em busca do instante que só acontece neste século. De repente os seus braços erguem-se, sinto-o emocionado, acena, todo o seu corpo treme. O ex-candidato presidencial parece um caloiro ávido deste aroma onde as rosas e as mãos têm um simbolismo particular. Alegre é o homem-poema, o homem-palavra, o homem-voz que se abeira do silêncio para em comunhão cerzir a obra poética cinquentenária. 
O tempo era longo para quem esperava. Todos o esperavam. Uma voz colocada começa lentamente a ensaiar, glosando a trova do tempo que não passa, na versão circunstancial, uma espécie de passadeira metafórica por onde há-de passar o poeta de Abril. Ei-lo, ergue-se da cadeira, sobe o primeiro degrau e de mãos ao alto rasga a ovação com palavras tatuadas de vivências Coimbrãs. Vi-o subir o palco como se fosse a primeira vez, ia em busca da palavra certa que o ajudasse a misturar-se na multidão, a soltar-se no embaraço que a circunstância lhe impunha. Era um homem vestido de emoção, a lágrima espreitou-lhe no olho esquerdo, mas o caminheiro destas andanças olhou em volta e, seguro do instante, reencontrou a marcha nos nomes que sempre o admiraram. Lá estava o antigo ministro António Arnaut com quem trocou um longo abraço e algumas palavras sussurradas, como se celebrassem o reencontro da memória, esse prodígio que nos perpetua para lá de todas as guerras. Confesso que fiquei com pele de galinha, um rio de lágrimas correu dentro de mim. O momento era histórico, ali estava a voz com que a minha biblioteca sonora soletrou: a “Trova do vento que passa”. A sua imagem no palco irradiava uma luz única, as verdades são mais verdadeiras quando Alegre as diz, quando a sua voz coloquial é uma melopeia inquieta. Os poetas têm esse sortilégio de misturarem as noites na filigrana das estrelas. Todos os dias a luz da sua obra poética revela o solstício das marés onde naufragam os amantes de causas. Como ele disse, o “cravo na lapela nas comemorações do 25 de Abril” faz toda a diferença entre ele e Cavaco Silva. Na hora da verdade o povo distingue entre o silêncio o fulgor da razão.
(Publicado <em>in</em> Diário de Coimbra)
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<title>O mistério da ausência</title>
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O regresso às aulas permanece no imaginário de todos nós como um fogo sagrado da infância. Os cadernos, as borrachas perfumadas, os lápis, as mochilas e, principalmente, o reencontro. A ansiedade que antecipava o regresso à sala de aula era uma espécie de catedral onde se combinavam as angústias e os desejos. Rever cada rosto como se revisitássemos uma rua, soletrar todos os sinais e reencontrar os seus significados para trazer de volta a intimidade que as longas férias quebraram, era desocultar o mistério da ausência. O Verão era imenso, era uma eternidade que fazia esquecer a escola, que nos permitia reinventar o tempo das cigarras e adocicar os afectos. Ter as horas dos deuses para espraiar os sentidos nas luminosas manhãs do Alentejo era chamar pelo prodígio de uma liberdade esculpida sem adornos nem dogmas. O sentido da vida tinha explicações simples, a brincadeira era a mais complexa de todas. Com o regresso das aulas era necessário desfazer essa teia de paciência, tecida ao longo de muitos dias; os rios querem-se fortes para espreguiçarem os seus leitos nos sinuosos caminhos da sua viagem. E, tal como as líquidas forças, as crianças querem-se livres dos espartilhos que condicionam a sua plasticidade. A paleta das escolhas, constelação de acasos e mistérios, oferece-se como as margens, suavemente, para acolher a sensualidade da natureza. Cada paisagem criativa é uma dádiva natural que teima nas suas confidências em devolver às crianças o melhor do criador. As minhas “férias grandes”, como eram chamadas, devolvia-me à linguagem da terra, ao canto dos pássaros, às ondas gigantes das searas, ao convívio dos filhos dos outros, que se tornavam meus amigos, às caçadas na companhia dos crescidos e, também, à biblioteca. 
Havia em tudo isto “o mistério da ausência”, uma oculta presença que anualmente teimava regressar com os seus segredos mas, principalmente, com a disponibilidade de seduzir os fiéis da férias. Depois de muitos dias sem os amigos habituais, o primeiro dia de aulas adensava a pergunta: - Onde estiveste? A resposta era o princípio de uma renovada cumplicidade. Depois entrava o professor, os corpos ficavam hirtos, o silêncio era uma espécie de nuvem respeitadora que se espalhava por toda a sala. Sentiamos um espécie de formigueiro, uma inquietação. Afinal, os sinais repetiam-se anualmente, mas naquele ano havia um mistério perturbador: a nossa professora tinha ido para outra escola. Por que nos abandonou? Aquela professora primária que nos ensinou a ler, a contar, a olhar o mundo com os olhos de Apolo tinha deixado saudades em cada um dos seus alunos. Um silêncio triste escorreu em cada uma das faces dos meninos que teimavam em saber por que razão a sua professora não estava ali no regresso às aulas. Aos poucos a resignação converteu-se e a luz começou a entrar pelas janelas. Fomos chamados pelos nomes e, no final, o novo professor leu um poema do poeta João de Deus. O nome deste poeta ficou-me para sempre na memória, associado a um dos dias do regresso às aulas. 

Evoco-o para lembrar que, no regresso às aulas deste ano de 2009/10, o nome de João de Deus cruzou-se novamente com essa memória. Mas agora, porque levei pela mão o Rodolfo Alexandre e a Susana Beatriz ao 1º Jardim Escola do poeta e pedagogo.  

Os fios das gerações unem-se, também, pelas vozes dos poetas que revelam alguns mistérios e, também, algumas inspiradoras ausências. (<em>in</em> Diário de Coimbra).
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<title>Frederico Lourenço</title>
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<summary type="text/plain">A tradução do grego para português da “Odisseia”, de Homero, poema do século VIII antes de Cristo, trouxe-o para a ribalta, foi mimado, admirado, entrevistado, objecto de encómios próprios dos heróis homéricos. Frederico Lourenço nasceu em Lisboa, mas fez a...</summary>
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<![CDATA[<img src="http://tbn1.google.com/images?q=tbn:HyVlRDPZW2wT1M:http://farm1.static.flickr.com/153/405517861_6518713a20_m.jpg">A tradução do grego para português da “Odisseia”, de Homero, poema do século VIII antes de Cristo, trouxe-o para a ribalta, foi mimado, admirado, entrevistado, objecto de encómios próprios dos heróis homéricos. Frederico Lourenço nasceu em Lisboa, mas fez a instrução primária em Inglaterra (Oxford), tendo-se dedicado, mais tarde, ao estudo da música no Conservatório Nacional e, também, na Escola Superior de Música de Lisboa. O classicista, o romancista, o docente da língua grega está de malas aviadas para Coimbra. Vem leccionar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Este mediático professor universitário, licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas e doutorado em Literatura Grega pela Universidade de Lisboa, com uma tese sobre Eurípides, cujo júri incluía Maria Helena da Rocha Pereira (Universidade de Coimbra) e James Diggle (Universidade de Cambridge). É este docente e, simultaneamente, exímio pianista, que vem emprestar o seu “glamour” à mui nobre e vetusta Universidade de Coimbra. Vem como professor associado, tendo sido aprovado por unanimidade pelo júri. 
Tradutor da “Ilíada” e da “Odisseia”, de Homero; das tragédias, “Hipólito” e “Íon”, de Eurípides;  e da antologia “Poesia Grega de Álcman a Teócrito”. 
Como ficcionista publicou uma trilogia de romances: “Pode um Desejo Imenso” (2002, prémio PEN Clube 2002), “O Curso das Estrelas” e “À Beira do Mundo”, uma colectânea de contos “A Formosa Pintura do Mundo” (2005) e dois livros autobiográficos: “Amar não Acaba” (2004) e “A Máquina do Arcanjo” (2006).

É um autor premiado. Destacam-se:
2002: Prémio PEN Clube 2002 (Primeira Obra).
2003: Prémio D. Diniz da Casa de Mateus.
2003: Grande Prémio de Tradução - APT (Assoc. Port TRAD)/ PEN Clube 2003.
2006: Prémio Europa – David Mourão-Ferreira. 

É este o diamante que Coimbra, cidade com ambição, acolhedora e cosmopolita, se prepara para receber. O que terá levado Frederico Lourenço a escolher a cidade de Pedro e Inês? Quaisquer que sejam as razões, importa saber que Coimbra fica mais rica, que há um júbilo que contagia aqueles que se banham nas águas estéticas do mundo clássico. A notícia surpreendeu, parecia um conto de fadas, um raio luminoso saído de um buraco negro, uma invenção de Cassandra, uma astúcia de Ulisses. 
A Ítaca de Frederico Lourenço é Coimbra, aqui encontra a “Atena de olhos garços”, a “Aurora de róseos dedos” e a divina entre as deusas: Calipso.  Também se encontra a sombra de Antero de Quental, na escadaria da Sé Nova, a vasta melodia da canções do Zeca Afonso e de Adriano Correia de Oliveira. Há nesta mistura de sons e de memórias o eco das palavras que se combinam para que os poetas exaltem os instantes que não podem ser adiados. Toda a luz é um clarão de luminosas utopias que se libertam das trevas para iniciar os homens na verdade e na beleza.  

Ulisses prometia, em resposta a Penélope, no seu regresso a Ítaca:
“(...)  contar-te-ei tudo, sem nada te ocultar”. 

Que o amor de Frederico Lourenço a Coimbra “dure mais que uma hora”.(Pubicado no <em>Diário de Coimbra</em>)

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<title>As palavras 2</title>
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<issued>2009-08-27T01:13:54Z</issued>
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<summary type="text/plain">A princípio era difícil compreender o que tinha acontecido. Cogitava sobre o passado, revia os pequenos gestos, às vezes, até à exaustão, sem nunca chegar a conclusões. Lá em casa havia uma gata preta que gostava de se espreguiçar sobre...</summary>
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<name>António Vilhena</name>

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A princípio era difícil compreender o que tinha acontecido. Cogitava sobre o passado, revia os pequenos gestos, às vezes, até à exaustão, sem nunca chegar a conclusões. Lá em casa havia uma gata preta que gostava de se espreguiçar sobre um velho sofá de cabedal castanho. As suas unhas transformaram-no numa cascata de arranhões. A sua única companhia era a gata, que se enroscava nas suas pernas em busca de mimo. Quando ele abria a porta trepava todos os móveis até o dono lhe abrir os braços...

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